A beleza de uma praga
Hoje quero contar algo inusitado, mas que, aposto, o leitor irá gostar. As fotos que usei, bem, eu as queria guardar para usar no site Floresta de Suculentas, que eu e o Diego estamos construindo, mas… arre!, as usei aqui! Essa postagem não tem uma temática muito usual para OsAmorais, mas, afinal, aqui postamos o que quisermos.
Bom, antes de mais nada, devo começar dizendo que eu sempre tive um ódio mortal pelas borboletas do gênero Pieris, que habitam a minha região. Tanto que adorava sacrificá-las dando suas lagartas para as minhas plantas carnívoras (veja a foto abaixo), peixes betta e tartarugas… Às vezes, quando excepcionalmente caridoso, as jogava em locais de mato, mesmo sabendo que lá elas dificilmente achariam alimento conveniente, vindo a morrer de fome… (Aliás, adoraria ter feito isso com elas…)
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-Mas como podes dizer isso, seu monstro?! O que esses bichinhos podem fazer contra você?!
Bom, eu cultivo couves, couve-flor, brócolis e radiche. Essas borboletas são a forma adulta da famosa “lagarta da couve”, parentes do “curuquerê” de outras regiões. Suas lagartas são especialmente gulosas por qualquer planta que tenha bastante enxofre em seus tecidos, como as que citei. Por isso, todo outono (elas não “atacam” na época mais quente, como os curuquerês) ou eu as extermino, ou fico sem colher essas plantas. Esse ano, porém, outono de 2009, eu eliminei as primeiras levas de larvas e ovos, mas, depois, entretido (entertido) com as exigências do trabalho e do mestrado, vacilei e várias ninhadas ecloriram (nasceram, cascaram, saíram dos ovos) e se deliciaram… Meus brócolis morreram, minhas mudas de pimentão sumiram, minhas couves-flores viraram esqueletos e a minha couve de três metros (veja a foto abaixo) virou um talo pelado de três metros…
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Desnecessário dizer que eu fiquei furioso… Mas, o estrago já estava feito, eu não ia colher mais nesse outono mesmo, então não havia sentido algum em matar as lagartas, que já haviam crescido bastante, e estavam “gorduchinhas”. Sem motivo racional para machucá-la, senão uma raiva simplória, as deixei pelos canteiros e vasos, comendo o que restava e virando casulos. A quantidade de casulos era surpreendente. Como em todos os anos eu protegia os canteiros, nunca havia visto tantas delas terminarem a fase larval (de lagarta) juntas. Virariam borboletas e iriam embora, eu pensei. Mas eu estava errado…
Não falemos ainda de como eu estava errado… Bom, elas obviamente sofreram a sua famosa transformação e dezenas de borboletas começaram a surgir diariamente pelo meu quintal. Aquelas coisinhas com asas molengas começavam a emergir dos casulos para encarar o mundo. Agora estavam livres, não eram mais “dimenor”.
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(A foto acima mostra uma borboleta recém eclodida, seu casulo oco logo abaixo e um casulo ainda em transformação à esquerda.)
A partir daí, elas começaram a aparecer em todo lugar. Essas lagartas se dispersam depois de crescer o bantante para virar casulo, pelo que tinha crisálidas (casulos) onde quer que eu pudesse imaginar pelo pátio! Antes de finalizar, mostro algumas fotos de borboletas recém eclodidas, que achei com as asas ainda moles:
(clique nas imagens para ampliar)
Bom, então, por fim, agora que creio já ter o leitor uma idéia da ‘torrente’ de borboletas que surgiu no meu quintal, posso contar no que foi que eu errei: Elas não ‘voaram e foram embora’. Pelo contrário, a maioria delas passou vários dias vivendo dentro dos limites de meu quintal, provavelmente pela grande quantidade de ferormônios (hormônios sexuais dispersos pelo ar) que as várias borboletas soltavam aqui ao mesmo tempo. O resultado… bom, pode soar estranho para um marmanjão barbudo dizer desta forma, mas o resultado foi lindo! Imagine mais de trinta borboletas ’flutuando’ pelo quintal da sua casa, ora formando grupos, ora sozinhas! Não posso descrever o quão prazerosa foi aquela manhã de sábado, onde fui pegar um solzinho em meio aos canteiros e ler um pouco quando, de repente, pousa uma bela borboleta branca no meu Crime e Castigo. Quanto mais quando ela voou, deu algumas voltas pelo ar e pousou… na minha cabeça! Aí depois veio uma “tchurminha” esvoaçando numa brisa mais forte, e duas delas pousaram em mim também. Outra ainda pousou no meu ombro e ficou ali até eu encerrar minha leitura para ir cumprir alguns afazeres. Agora… imagine a sensação do macacão aqui, lendo um livro fantástico, num ambiente agradável e no meio de uma orgia de borboletas? (Calma, gente! Eu não participei com elas, não!)
Povos antigos acreditavam que avistar revoadas de borboletas eram um sinal de boa sorte, e outros que ter uma delas pousada num dos ombros o era mais ainda… Eu devia estar mesmo muito sortudo naquele sábado. Ah, estranho como o mundo está cheio de beleza, e poucos a vêem. Eu poderia até ter visto as revoadas como perigosas pragas, sem perceber aquela beleza toda. Beleza… “taí” uma coisa que pouca gente conhece… Ou melhor, até conhece, mas não reconhece. Vê, mas não enxerga.
Bom, só sei que de agora em diante, vou reservar pelo menos alguns pezinhos de couve para tais criaturinhas, e torcer para o que eu vi nesses últimos dias possa também melhorar o dia outras pessoas por aí…
Enfim, só para terminar, me deixe contar que, enquanto eu escrevia estas palavras, uma dessas belas borboletas entrou, apesar de ser noite, pela janela e ficou rodopiando pela saleta, assustando meu amigo Sr. Picô Penacho, que estava no meu ombro me acessorando. E posso provar, pois vou tirar uma foto dela agorita:
Só não reparem na saída de luz ainda sem bocal, rs







































Parabéns pelo texto encantador Ravick.
Bom tive oportunidade de ler este texto ontem à noite. Foi um texto original que revela o Ravick. Literatura da boa porque não tem compromisso de agradar A,B ou C. Ao ler esse texto tive a impressão de ter lido uma carta ou um diário, tão íntimo que o autor se fez de seus leitores.
Parabéns a vc que tem olhos de ver e percepção de sentir oque é beleza.
Ótmo texto Ravick! Meus lamentos pela sua lavoura, mas meus parabéns pela experiencia de acomanhar esses insetos de uma forma bem próxima!
Abraço
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“(…) ódio mortal pelas borboletas (…)”
Oras Ravis. Tire o ódio do seu coraçãozinho…
Cheers,
.
Oh! Ravick! Bom saber que você é toda essa beleza declarada nesse texto. Que lindo!
Só quem suporta as lagartas ganha este presente…..
demais seu texto, muito bem escrito, parabéns!!!
Amei seu texto e sua experiência/vivência. É por essas e outras que eu digo e afirmo que a sensibilização só acontece quando a gente realmente sente, contagia ou contagia-se… Eu sou uma grande defensora das lagartas, embora tenha aflição de pegá-las. Parabéns pelo texto e pelo BLOG. Aguardo o seu site florestadesuculentas.
Adimito que estava a procura de uma boa forma de matar as inúmeras lagartas da minha horta, porém depois de ler esse texto naturalmente lindo,resolvi deixar as famintas lagartinhas vivas e doar alguns pés de couve a elas. Nunca tinha parado para pensar na beleza de uma borboleta e menos ainda que elas antes de serem borboletas são famintas lagartas!
[...] vão embora. Existem, porém, duas exceções: As lagartas da borboleta-da-couve, após terem comido parte da minha horta, se dispersam pelo quintal para achar um lugar onde possam se transformar em casulo com segurança, [...]
Estou vivenciNDO UM guerrA com as lagartas que querem devorar minhas pimenteiras mas, mesmo assim, me emocionei com seu texto.LINDO!!!!!!!!!!