Os meninos não estão bem
Vocês gostam de The Offspring? Já ouviram falar ao menos? Tudo bem, não importa. Essa banda de rock possui uma música chamada The Kids Aren’t Alright, cujo título me parece uma brincadeira com The Kids Alright do The Who, que trata sobre o crescimento de jovens em uma rua qualquer de um bairro de periferia. Todos possuem projetos, sonhos e perspectivas de futuro, até que em um dado momento suas vidas tomam um rumo desfavorável: aquela garota engravida e tem dois filhos; outro se suicida; um terceiro fica o dia inteiro com a guitarra e fumando maconha. Em um dado pedaço da música é cantada uma pergunta marcante: “Como pode uma rua tão pequena engolir tantos sonhos?”…
The Offspring não é nenhum clássico do rock (fez um puta disco chamado Americana (todos deveriam conhecer), outros discos até legais e uns últimos bem chatos), mas escreveu uma das músicas que mais me impactou. Enquanto eu escuto The Kids Aren’t, lembro de amigos de infância, ex-alunos e conhecidos que dividiram seus sonhos comigo, e hoje repetem a mesma dança dos seus pais… Eu cresci em bairros da periferia de Goiânia, onde tínhamos pessoas pobres e de classe média baixa. Não eram favelas ou um reduto de miseráveis, nem dava para escrever um roteiro de filme brasileiro (com favelados falando palavrão e tomando “pipoco”). São bairros simples e comuns. Os meninos jogavam bola o dia inteiro, brincavam de pique quando chegava a noite, fugiam do dever de casa da escola, íamos para casa de algum amigo com grana pra jogar vídeo-game, às vezes pro “taito” – lugar onde alugávamos um vídeo-game por hora – ou fliperama tradicional (rachão de Street Fighter e The King of Fighters era uma tradição que perdurou até o fim da minha adolescência)… Até hoje eu me pergunto como cabiam tantas atividades em um único dia. E depois que crescemos um pouco, o dia ainda ficou mais longo: a gente tomava banho, jantava e ficava de papo na rua, agora acompanhado de garotas que, desesperadamente tentávamos ficar.
Aí veio o 2º Grau (Ensino Médio), e as preocupações com vestibular e futuro começaram a surgir. Acabou o rachão no fliperama, as tardes no taito e o golzinho de rua ficou relegado aos domingos à tarde. As conversas giravam em torno do futuro, sexo e garotas – de certa forma, tudo estava relacionado (era preciso um futuro para conseguir garotas e sexo). Ninguém assumia, mas a gente transpirava medo… O que vai acontecer de agora em diante? Ser o bad boy da rua não garante uma faculdade pública. Nossos pais não tinham grana para pagar uma faculdade particular. Era hora de arrumar um emprego, crescer e virar um homem. Muitos começaram a trabalhar em farmácias e mercados locais, fazendo entregas ou ficando no balcão lá pelos 15 anos; outros teriam que começar assim que terminassem o colégio; e tinham aqueles como eu, que se não passassem na Federal, teriam seu futuro reduzido a “Seja bem vindo senhor ao Supermercado/Padaria Pão Quente”… Eu queria ser professor, outros engenheiros, advogados, médicos, contadores, atletas, enfermeiros, administradores, programadores etc. Em suma: todos queriam fugir do emprego de dois salários mínimos que definia a vida dos nossos pais, avós e irmãos mais velhos. A gente queria dançar uma dança diferente daquela do nosso bairro. Queríamos fugir dali e alcançar um ideal de sucesso e realização profissional diferente de tudo o que nos cercava.
Olhar para o mundo em nossa volta era desesperador: gerações e mais gerações de vidas medianas. A gente queria algo mais, ou pelo menos alguns de nós. Eu me lembro com clareza de um dia onde um amigo me contou seu plano de vida: arrumar um emprego de entregador na farmácia, depois conseguir um melhor como telefonista na Brasil Telecom – dois salários e meio + ticket alimentação e vale transporte + plano de saúde. Aí ele ia curtir a vida, sair toda sexta e sábado, e construir um “barracão” (puxadinho) no terreno da vó dele, pra levar as garotas pra lá.Era o ideal de vida que muitos não queriam, mas nesse dia eu fiquei feliz por ele , pois dentro das possibilidades do nosso mundo, esse era um dos melhores planos: um emprego que não exigisse ficar dias e dias debaixo do sol quente, realizando uma atividade física exaustiva e ganhar uns R$1.000,00 por mês. Não haviam exemplos de sucesso próximos a nós, no máximo aquele tio “rico” que aparecia de vez em quando e nos levava pra casa dele nas férias: duas semanas vivendo uma vida que não era a nossa. Mas isso tinha um lado bom: quando um de nós voltava de férias, podia contar vantagens sobre a casa do tio para todo o resto da turma!!!
A ausência de ideais de sucesso trazia uma das piores sensações que já experimentei: a de olhar para o mundo e não encontrar nada que sustentasse os nossos sonhos. Nada, simplesmente nada, nos dizia que daríamos certo. Na verdade, o mundo inteiro parecia conspirar para o fracasso de nossas perspectivas. De certa forma, sentíamos como se algumas pessoas quisessem ver exatamente vários fracassos: uma espécie de punição por querermos algo diferente, ou simplesmente inveja por termos perspectivas diferentes e superiores aos de seus filhos. Hoje, eu vejo que o sucesso que alguns poucos de nós conquistamos, acabou por acentuar o fracasso de muitos outros. Talvez por isso hoje, quando voltei aos lugares onde cresci, senti tanta animosidade entre aqueles que foram meus amigos. Mas sobre isso eu falo depois… O fato é: sentíamos uma pressão enorme em nossos ombros – alguns ironizavam nossos sonhos e os tratavam com desdém, outros tinha expectativas demais em relação a gente, e por fimoutros tantos nem ligavam pois tinham problemas demais para prestar atenção na geração que eles mesmos tinham gerado…
Crescemos assim, experimentando diferentes pressões: a confiança em excesso, a raiva e inveja, e por fim a indiferença de quem deveria se preocupar com a gente. E percebo como esses sentimentos eram amplificados dentro daquele contexto: a pressão era bem maior do que deveria/parecia ser, ou pelo menos sentíamos dessa forma. A transição da adolescência para a vida adulta foi algo bem complicado, e eu hoje penso em todas as perdas que tive: amigos, ideais românticos, noção de familiaridade e meu espaço. O caminho que alguns conseguiram tomar, acabou por nos afastar por completo dos nossos referenciais de infância e adolescência. Bem meus amigos, o tema é extenso pra caramba, e eu com certeza posso escrever um livro só sobre isso. Vou desmembrar esse texto em partes e postar durante a semana.
Aproveitando o momento: queria convocar os nossos leitores a comentarem os posts. Estamos com uma quantidade legal de gente nos lendo, e de certa forma o nosso conteúdo visa/propicia o debate, a gente meio que quer provocar vocês a opinarem sobre nossas idéias, e com isso conhecer as idéias de vocês. Então, se você tem algo a dizer sobre um post nosso, manda ver rapaz! Comenta! Aqui o espaço é para exercitarmos uma liberdade madura e moderada…
Abraços,
Diego.







































Parabéns Diego, pela coragem de expor-se. Que texto lindo. Penso que você pode escrever um livro muito verdadeiro, falando dos sentimentos e modos de ver a vida nas condições que você descreve aqui. Garanto que muitos vão se identificar com os medos, sonhos, anseios e realidades expressas por você. Também considero super útil para os que ainda estão vivendo a fase da adolescência e juventude, sejam pobres, médios ou ricos. As inseguranças são as mesmas e independem de situação financeira. Claro que no caso que você descreve tem o agravante da situação financeira precária, a sobrevivência mesmo. Continue escrevendo. Emocionei-me.
Faço minhas as palavras da Paki, o/
E que venham logo as seqüências! :O
[...] (Esse texto é continuação desse post aqui) [...]
Diego, só mudamos brinquedos, todas as gerações passam por isso… as frustrações são a mesmas.
“Diego, só mudamos brinquedos, todas as gerações passam por isso… as frustrações são a mesmas.”
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Falei isso com ele Gil, que ao ler, me senti dentro desse negocio.
“Como os nossos pais”
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E por que vocês acham que digo “a mesma dança das gerações passadas”?
Me vi no seu texto.
Veio numa hora que consegui finalmente me organizar e pensar em tudo isso, que engraçado!
Pra superar a frustação de perceber tanta morte e tanta gente torcendo contra ( isso é dose…) tento ver a parte de sermos este referencial que não tivemos, de ajudar com nossa trajetória, outros jovens que não sabem como começar.
O ‘fato ‘ é o melhor argumento.
Saudações.
Nada Diego, apenas aquilo que todo mundo tem a sensção que já passou, mas com upgrade de muiscas, games, etc. Entendo que passamos o pensamento hereditario, essas coisas de cobranças , pressoes e o que deveria ser certo ou errado.Quando nao alcançamos os objetivos que foram expostos pelos nossos pais com tanto carinho, por vezes nos sentimos falidos, e vazios.O que não é uma verdade, é apenas aquela coisa que não mujdará – visionar demais o futuro. Isso consome uma pessoa
Como meu pai, eu faço com a minha filha, se ela tiver um filho, fará com o dela. Saca o Manual que já vem prontinho pra gente, feito nossos antepassados?
É bem por aí.
bjs
[...] texto é continuação desses posts aqui e [...]
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