Os meninos não estão bem (parte 2)
(Esse texto é continuação desse post aqui)
Você já teve a sensação de ter caminhado demais e quando olhou para os lados não encontrou ninguém mais? Uma das partes mais complicadas de crescer é perceber, depois de algum tempo, que muita gente acabou ficando para trás. Eu terminei o texto anterior com uma referência à perda dos referenciais e ideais românticos da juventude. E na verdade, a perda mais impactante é do lugar onde crescemos… Depois de um tempo, o fliperama onde gastei incontáveis tardes da minha vida, parecia apenas um boteco sujo, mal frequentado, com games datados onde as crianças gastavam seu dinheiro. A rua onde jogávamos futebol está gasta, suja e quebrada, já não dava mais pra simplesmente tirar os chinelos e, com os pés nús no meio da terra e asfalto, bater uma bola. Agora precisávamos de uma quadra ou campo, tênis ou chuteiras. Às vezes vinha a vontade de jogar descalço, mas nenhum de nós fazia. O tempo disso tinha acabado, entendíamos isso de uma forma suave… De certa forma, acabamos por ter vergonha de gastar o tempo vago com as atividades de antes… Isso a gente tinha 17 anos, e finalmente tínhamos uma resposta do vestibular: eu entrei para História, outros foram para Filosofia, Direito, Engenharia, Administração, Matemática. Muitos não passaram, aliás preciso apenas dos dedos das mãos para contar os que conseguiram entrar na universidade pública. Alguns foram para uma faculdade particular, e a maioria esmagadora nem para uma, nem para outra: estavam agora trabalhando e iriam dançar conforme a tradição das gerações anteriores.
E essa foi a primeira ruptura em nossas vidas…
Naquele momento o bando de adolescentes vagabundos do bairro tinha se dividido… Alguns se envolveram com drogas, roubos, foram presos e tudo mais: esses se tornaram os “vagabundos do bairro”. As pessoas exorcizavam suas frustrações e raivas neles: “Tá vendo? Eu sempre disse que esse menino não ia dar em nada”. Outros foram trabalhar: eram os “meninos honestos e trabalhadores”, seriam a continuação dos pais e avós. Jogariam futebol com os filhos aos domingos, ou encheriam a cara durante os fins de semana dando vexame na rua, servindo de piada para os garotos que viessem depois da gente. E tínhamos nós: os “garotos de futuro”. A gente tinha uma faculdade, chance de bons empregos, teríamos uma boa casa e bons carros, nossos filhos estudariam em escolas particulares e beberíamos em bares melhores. Ironicamente, as pessoas nos usariam para exorcizar suas frustrações, assim como faziam com os vagabundos do bairro.
Os “garotos de futuro” eram fonte de orgulho e rancor. Alguns amigos e parentes ficaram realmente felizes com nossas conquistas, outros tantos ficaram magoados ou, quem sabe, agredidos. O fato é que antigos amigos agora estavam frios e distantes, irritadiços e buscavam sempre uma forma de apontar nossos erros. Mas não eram apenas os amigos: aquelas senhoras fofoqueiras com suas cadeiras na calçada em um fim de tarde, se esgueirando pelas fileiras do mercado local ou padaria, destilavam seu veneno e comentários mordazes. Todos nós tentamos, por algum tempo, conciliar nossas novas vidas com o lugar onde crescemos, mas com o passar do tempo não dava mais para respirar aquele ar pesado que nos pressionava e sufocava. Era impossível respirar.
Em um dado momento só aparecíamos em casa para dormir. Tínhamos agora muita coisa pra estudar, e o tempo não dava mais para nada. Novos amigos e novos mundos eram apresentados na faculdade. Gente com histórias e visões de mundo diferentes das nossas. Um universo de conhecimento que a escola não havia nos apresentado, estava ali na biblioteca da faculdade, e nas bibliografias que os professores passavam no início de cada semestre. Eu, por exemplo, estava descobrindo minha paixão por música. Não dava mais para sentar com o pessoal da rua de noite, e ouvir aquelas músicas de rádio e boate, enquanto eu quase chorava com Shine Crazy on Diamond, do Pink Floyd; me exasperava ao ouvir Not Touch The Earth, Touch Me e The End do The Doors; extravaza a minha raiva com o álbum Quadrophenia, do The Who. Amigos me apresentaram Black Sabbath, Queen, Ozzy Osbourne, The Cure, Pet Shop Boys, Simon and Garfunkel, Nazareth, Mettálica, Elvis Presley e U2. Eu finalmente entendia o impacto da música enquanto arte. Acordes de guitarra, viradas de bateria, violinos, pianos e teclados faziam todo o sentido para mim. Até hoje, nada expressava melhor o nosso desespero e dor do que o solo final de Confortably Numb. Apenas a guitarra solando, sem palavras ou qualquer outra coisa, apenas aquela guitarra chorando. E os livros… Ah! Machado de Assis, Alvares de Azevedo, Voltaire, Sartre, Foucalt, Nietzsche etc., todas essas idéias transbordavam a cabeça da gente, e finalmente o mundo parecia se abrir pra gente… E o como ele era maior do que a gente no lugar onde cresceu.
Com tudo isso acabamos por fazer valer o conceito de “garotos de futuro”. Não tínhamos ninguém para discutir “Elogio ao Ócio”, do Russel; ou o poema “Ausência”, do Carlos Drummond. Quando eu conheci o punk rock, e principalmente, quando ouvi Dead Kennedys pela primeira vez, eu não tive com quem dividir. Filosofia, Literatura, Ciências e Artes não faziam parte do contexto das pessoas do bairro… Percebemos durante as conversas com antigos amigos, o quanto a gente tinha mudado e com isso nossas perspectivas de mundo e futuro. O que eles falavam parecia pouco para gente; o que a gente falava não fazia sentido para eles.
E aí tivemos a segunda ruptura em nossas vidas…
A primeira foi quando percebemos toda a pressão e amargura em algumas pessoas. Era algo mais deles conosco. Agora foi a nossa vez de romper com eles. Tínhamos finalmente percebido que a gente não mais se encaixava naquele mundo. A mudança trouxe com ela a necessidade de encontrar um espaço novo. E essa necessidade trouxe com ela a constatação de que aquele bairro não era mais nosso… A partir daquele momento não tínhamos mais uma casa, estávamos sim na casa de nossos pais, e essa é a denominação que perdura até hoje: o bairro onde meus pais moram, em alguns momentos, com certa estranheza, dizemos “o bairro onde crescemos”, mas não é mais nossa casa, nosso bairro. Desde então os comentários maldosos das vizinhas fofoqueiras e a amargura de colegas de infância, não tinham mais importância. Com a perda do referencial de casa e espaço, perdemos também os laços com as pessoas dali. Decidimos limpar nossa vida, e jogar fora caixas e mais caixas cheias de coisas velhas, liberando espaço para o novo.
Bah! Eu vou deixar para discorrer sobre a sensação de perda no próximo texto, para esse não ficar extenso demais. Até lá.
Abraços,
Diego.







































Quanta maravilhosa experiência você tem guardada dentro de você. Sinto-me privilegiada. O que você conta é tão humano, toca fundo na minha alma, pois saí da casa de meus pais com 16 anos e por mais que o contexto fosse outro, os sentimentos de perdas e de ganhos também, foram tão parecidos com os seus que é por isso que reafirmo que esses seu textos poderiam virar um lindo livro de emoções associadas com mudanças necessárias nas nossas vidas. Que ajudariam muitas pessoas a compreenderem o caminho que já percorreram na vida, e a resignificarem suas experiências. Tô lembrando de duas coisas maravilhosas do meu passado: “Tia Júlia e o escrivinhador” do Garcia Lorca, e o personagem que escrevia novelas de rádio; e um livro que meus filhos leram “Os meninos da rua Paulo”, que não lembro agora o autor. Parabéns. Continue escrevendo que serei sua leitora assídua. Obrigada por essa riqueza.
Quero complementar dizendo que eu considero que “os meninos estão bem”…os que sobreviveram ao massacre da vida. Mostrando ao mundo a riqueza de suas vidas.
Como sempre um ótimo texto Diegão.
Ontem mesmo li algo que falava sobre resignificação, como AMRITA PAKI em seu comentário coloca. E acho que a idéia é sim muito legal: resignificar a interpretação de sua vida! Não sei se daria um bom livro para compreensão pessoal, isto soa meio auto ajuda, mas com certeza os textos trazem conforto a guerreiros, que verão que não estão tão sós. Para mim a resignificação é outra batalha: individual, intransferível e atemporal.
Diante da superação das fases, para os guerreiros por natureza (também conhecidos como insatisfeitos), abandonamos costumes, práticas e idéias… bem como pessoas. Muitas pessoas. É desesperador pensar onde se irá chegar. É desesperador pensar em retornar ao mesmo, por não ter mais forças para seguir… ou simplesmente abandonar o campo de batalha para ter o (des)prazer de uma vida com cara de vida comum.
Sabe o que penso?
Guerreiros unam-se!!! Forcem-se se!!! Pressionem-se!!!
Guerreiros, aceitem-se!!!
Um grande exemplo disto são os grandes congressos científicos em que os pesquisadores, dentro do seu ar de absolutos, se desafiam e degladiam diante uns dos outros!!! Eles não ocupam um lugar comum, e só podem estar em lugares não comuns!!! Assim eram os grandes como Eisntein, Maxwell…
Ressignificar-se moralmente é vida. As mudanças de fase sempre ocorrerão. “Qual é a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?”.
Imaginar que se está só nisto, e parecer um maluco no pedaço, dói pra caramba!!!
Abraço,
Kenneth.
Meu querido amigo kenneth, os livros de auto-ajuda têm cumprido o seu papel na sociedade muito bem. Aceite-os também. Fazem bem a quem precisa encontrar seus semelhantes.
Abração.
Esta solução do último parágrafo merece um “eureka!”
“Era algo mais deles conosco. Agora foi a nossa vez de romper com eles. Tínhamos finalmente percebido que a gente não mais se encaixava naquele mundo. ”
Chegou a hora de parar de ter medo da morte, é bom quando ela leva o que já tinha que ir mesmo.
Triste seu texto… mas não é um fato incomum.
E espero que existam muito mais “garotos de futuro” como você, e menos “vizinhas fofoqueiras” por esse mundão afora.
bjão moço!!!
Profundos em seu conteúdo, e na forma como foram escritos, de fácil leitura. Dois textos que fazem pensar na vida, de como a vivemos ou a viveremos. Muitos sentimentos vem a tona depois de ser agraciado com a leitura dos textos. Pensamentos soltos que passam pela mente em algum momento e que se tenta exorcizar, ou simplesmente não se considera a importância de tal reflexão. Parabéns !
Grande Diego !!!!Adorei seu texto. E como você retratou a vida bela do bela rela!!!O tempos complicados!! tomando pinga com limão escutando um pink floyd, mas foi ótimo para nosso crescimento e reflexões os novos obstáculos da vida que estava pela frente Aprendemos que os valores maiores estão nas pessoas que estaõ sempre ao nosso lado torcendo é esperando que algum momento um de nós vai suprerar e grita passei de fase!!Vou seguir em frente, não foi dessa vez que fui algemado e colocado a disposição de risada de pessoas que está sempre nos subjugando e colocando em segundo plano.Isso é superar e colocar você em primeiro lugar e deixar de lado esse mundo cheio de preconceitos e moral cristã. Parabéns e continua escrevendo
Caro Diego,
Penso que com seu texto vc procura uma resposta para o distanciamento cultural… seus conhecimentos lhe deram asas, assim como ocorreu com alguns de nossos amigos. As pessoas são sugadas pelo meio e as expectativas dadas pelo espaço tempo, são mesmo limitadas, mas, o que dói é limitar os sonhos… infelizmente alguns de nossos amigos não perceberam suas escolhas… e alguns deles se perderam nos remotos “becos do Bela Rela”, respeitar as limitações pessoais dos velhos amigos, permitindo a aproximação antes alcançada pela infância e desejos juvenis é hoje o nosso desafio… Seu texto traz à tona a tênue ligação dos laços de amizades e a frieza dos espaços em que são colocados os sonhos dos meninos, que não estão bem, com a chegada da realidade…
Parabéns pelo texto,
Ass. Laciel Rabelo