Os meninos não estão bem (parte 4)

Olá Pessoal,

(Esse texto é continuação desses posts aqui, aqui e aqui)

Todos esses textos extensos falam de uma única coisa: a transição entre dois mundos. Levamos uns 17 anos para construir amizades, conceitos e laços afetivos, temos a nossa visão de mundo, uma idéia simplória de como as coisas funcionam, do que seja certo e errado, divertido e chato, enfim praticamente um terço/um quarto de nossas vidas (supondo que todos alcancemos a velhice). Tudo o que escrevi pode ser resumido em um único conceito: apocalipse. De fato é o fim do mundo como conhecemos. Tudo vai embora, e por alguns momentos nossa vida fica suspensa no ar e, em troca de tudo o que perdemos, a gente recebe a responsabilidade de construir um universo novinho em folha (alguém lembrou da música “Hoje” do Camisa de Vênus? “Não há mais festa, nem carnaval, acho que fui enganado” – pois é, parece mesmo)…

Tenho um amigo que fica muito magoado quando não tem feedback em relação a dedicação dele com os outros. E certa vez a sua mãe, agoniada com o fato dele estar sofrendo, desabafou comigo, pois receava que ele nunca aprendesse a se preservar nessas situações, afinal ele estava já com seus 29 anos. Naquela hora eu percebi que ter 29 anos é ser extremamente novo: faziam apenas 10 anos que ele tinha deixado o antigo mundo para trás, e tentava construir uma vida nova a partir das cinzas do passado. Somente 10 anos de uma nova vida. Aos 29 anos estamos apenas na “adolescência da vida adulta”… ;-)

O fato é: sentimos nossa vida como algo contínuo e fluído, quando na prática ela é fragmentada em ciclos de durações diferentes para cada um. A passagem da adolescência para a vida adulta é um momento de ruptura com o velho, e construção de algo totalmente novo. Reaprendemos a viver e reconstruímos o mundo, e a nós mesmos. E aqui entra o ponto desse quarto texto: a angústia ao tentar um novo lugar…

Eu e meus amigos costumamos dizer “a gente pode até sair do bairro, mas o bairro não sai da gente”. Quando resolvemos procurar novas possibilidades, ficamos sem um lugar para chamar de nosso. Já tínhamos percebido o quão pequeno era o mundo onde fomos criados, e o como a gente queria mais. E na faculdade conhecemos pessoas de outros lugares, com outras perspectivas e morando em outros bairros. Eles viviam em um mundo a parte, bem diferente do nosso – como aquele tio rico que comentei no primeiro texto. E de certa maneira, estruturamos nossas vidas para sair do nosso mundo, e ir para o deles. Afinal, esse parece ser o caminho mais óbvio: ganhar dinheiro e morar em um bairro de classe média alta. Durante a faculdade sentíamos o quanto éramos diferentes deles: no modo de se vestir, andar, falar e brincar. Nem falo de questões financeiras: os idiomas que falavam, as viagens que fizeram, os carros que dirigiam etc. Existia uma diferença gestual gritante entre nós e eles. Mas pensávamos que isso acabaria com o tempo: logo teríamos nossos empregos, nossa grana e a diferença seria extinta, pelo menos amenizada. Ledo engano…

Hoje temos bons empregos, nossa grana e conquistamos um espaço no mundo deles. Porém, a diferença não deixou de existir, e nunca deixou de ser o mundo deles para ser o nosso mundo. O fato é que a gente acabou suspenso num vácuo entre o mundo de onde viemos, e o mundo deles. Somos um meio termo: não tão banais, nem tão sofisticados. Não temos a arrogância, a sofisticação e o ar de desprezo/superioridade/indiferença dos “nativos desse novo lugar”, nem a humildade, simplicidade e subserviência/acomodação/alienação do pessoal de nossas origens. Acabamos por criar uma simplicidade sofisticada, um traço só nosso, que não encontra espaço em nenhum lugar. Nos obrigaram a escolher entre dois extremos, e acabamos misturando um pouco de lá, com mais um tanto de cá. Parece um tanto heróico e romantizado, mas o que isso significa na prática é: não pertencemos a nenhuma lugar. O sentimento de ser um forasteiro no seu próprio bairro continuou…

Contudo, só temos 25 e 30 anos e ainda estamos na “adolescência da vida adulta”, tem muita coisa pra acontecer, na verdade ainda existe toda uma vida para se viver, e muito o que construir. Talvez esse sentimento de “falta de encaixe” nunca acabe, e nos sentiremos como forasteiros por muito tempo, mas o fato é que decidimos isso lá atrás: lutar por algo só nosso. Todos tivemos duas opções: se encaixar em mundo pré-formatado, e viver uma vida conforme regras já estabelecidas, ou experimentar algo diferente, e ter a responsabilidade de batalhar e construir nosso lugar no mundo. Escolhemos a segunda opção. Talvez a gente tenha se enganado em relação ao prazo: tínhamos 17 anos e acreditávamos que aos 25 tudo estaria encaminhado, e aos 30 colheríamos os frutos da nossa vitória. Estamos com 30 e ainda encaminhando as coisas, ou pensando em começar tudo de novo. Não importa, a vida nunca será um projeto fácil, e a “nós só nos resta cultivar o nosso jardim” (leiam Cândido, de Voltaire).

O próximo texto será o último: falará sobre ser um referencial para os que virão depois da gente, e uma perspectiva sobre a geração que nos sucedeu… Até lá!

Abraços,
Diego.

Comentários (2)

Amrita Paki27/05/2009 às 6:51

Tenho uma notícia prá te dar Diego. Estou com 55 e ainda cultivo meu jardim, encerro ciclos, inicio outros e descubro dimensões de mim, do outro, do mundo e do universo, antes imperceptíveis, intocáveis por mim. Seja quem seja esta “mim”. Tô adorando seu profundo “papo de boteco” sobre vida besta.

Amrita Paki27/05/2009 às 9:42

Ah!Sim! Continuo achando que os meninos estão muito bem.

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