A primeira vez que ouvi The Who
Semana passada a ópera rock Tommy fez 40 anos. Eu deveria escrever um texto sobre o fato, o disco, a banda etc. Mas isso um monte de gente já fez. Eu nem quis escrever nada até agora, resolvi esperar abaixar a poeira. Por que? Dois motivos: não correr o risco de escrever um texto sensacionalista, desses que aproveitam um fato só para ganhar visitas do Google; eu tenho a impressão de que sou uma das poucas pessoas com a minha idade a conhecer essa ópera, um texto meramente informativo não faria muito sentido para mais da metade dos leitores, então resolvi falar um pouco de como foi ouvir a banda The Who pela primeira vez… Algo mais pessoal que incentive as pessoas a conhecerem mais a obra dessa banda.
Quem acompanha o blog sabe que eu tenho uma relação forte com música. Já escrevi um texto sobre minha primeira experiência ouvindo Matanza, e o desejo de liberdade e vida que esses caras proporcionam com suas canções; tenho músicas específicas para definir momentos marcantes da minha vida: namoradas, fases, transições, momentos bons e ruins, pessoas que chegam, pessoas que vão… E foi num belo dia de agosto, mais especificamente no meu aniversário de 19 anos, e eu estava num bode daqueles: a garota que futuramente seria uma namorada, mas que no momento nem sonhava com isso, não tinha me ligado para dar os parábens, e eu estava voltando da cidade onde minha mãe morava. Triste da vida eu ouvia música enquanto o ônibus andava rumo a minha casa (pelo menos 4h de viagem). Já tinha esgotado o disco “A Tempestade” da Legião Urbana, e resolvi ouvir alguma coisa nova. Tinha uma banda que eu não conhecia, mas tinha baixado alguns discos para ouvir, afinal o nome deles era curioso: The Who. A primeira coisa que imaginei foi: nome pretensioso…
Escolhi o álbum “Who’s Next“, e tocou a primeira música… Era tudo perfeito: iniciava um teclado perfeitamente executado (depois descobri que se tratava de um sintetizador), um dedilhado com um som eletrônico e harmônico me prendeu pelos 40 segundos iniciais, até que ouvi a primeira pancada, o teclado parecia martelar um som para quebrar a ordem anterior; nesse momento iniciava a bateria, e que virada de bateria (ali conheci o tal do Keith Moon), intensificando a martelada do teclado; aí entra o baixo de um tal de John Entwistle, fazendo com que as marteladas durassem ainda mais tempo; já tinha mais de um minuto de música, quando entra o vocal de Roger Daltrey urrando as seguintes frases “Out here in the fields, I fight for my meals, I get my back into my living, I don’t need to fight, To prove I’m right, I don’t need to be forgiven“, a voz era firme e desafiadora, se encaixava perfeitamente com toda a rebeldia dos instrumentos; tudo perfeito, e eu ali segurando na cadeira do ônibus enquanto ouvia aquela coisa transcendental, mas onde diabos estava a guitarra? Mal acabei de perguntar, o vocalista termina a última frase acima, e eu nem sei de onde veio o caminhão que me atropelou: uma guitarra tresloucada, muito mais furiosa que todos os instrumentos juntos, soava nos meus ouvidos como um guindaste demolindo uma estrutura de aço, o som era ensurdecedor e diferente de tudo o que já tinha ouvido… Era a guitarra de um tal Pete Townshend. Agora estava tudo perfeito: os instrumentos continuavam executando aquele som agressivo e insano, o vocal urrava frases sobre encontrar meu espaço no mundo e uma tal “Teenage Wasteland”, e de repente a música aparenta acabar… O som dos instrumentos vai diminuindo pouco a pouco, e do nada aparece uma gaita tocando de forma lenta e vai acelerando, e a guitarra e bateria acompanham… A gaita fica cada vez mais rápida, e os demais instrumentos acompanham… Eu senti uma vontade de dançar uma dessas danças tribais malucas, tal como o Jim Morrison (The Doors), pois a música parecia um convite a quebrar todos os paradigmas e tentar algo completamente novo: ela me convidava a ser eu mesmo. Os instrumentos ficavam cada vez mais rápidos, e eu começava a sentir falta de ar: como aquele cara da gaita tinha tanto fôlego? Meu coração palpitava, a respiração arfava e eu não percebia mais nada a minha volta: éramos só eu e a música, até que de repente ela acaba!!! Sem baixar o rimo, nem nada, ela simplesmente chega num extremo de velocidade e acaba de forma abrupta… Eu estava em transe, e fui lançado para fora daquela experiência assim que os instrumentos pararam de tocar. De certa forma eu não via mais o mundo da mesma forma, sentia as coisas diferentes ao meu redor. Eu tinha acabado de ouvir “Baba O’Riley“…
Continuei com o disco e “Bargain“, “The Song is Over“, “Behind Blue Eyes“, “Won’t Get Fooled Again“, “Pure and Easy” e cia. produziram efeitos únicos (cada uma ao seu modo) e devastadores, assim como “Baba O’Riley“. Descrever as sensações que cada uma me proporcionou e proporciona, me levaria a escrever um texto para cada uma delas. Eu queria ouvir tudo de novo, mas eu ainda tinha outros discos para conhecer. Agora eu me encontrava num momento crucial: esse álbum foi marcante, era algo fantástico. E se o próximo fosse uma merda? Se o The Who fosse uma dessas bandas de “um disco apenas”? Seria decepcionante não experimentar sensações tão impactantes quanto aquelas músicas… Bem, eu não tinha internet para pesquisar e escolhi um álbum duplo (a velha lógica do “se é duplo deve prestar”) chamado Quadrophenia… Na época eu não sabia, mas essa foi a segunda ópera rock do The Who (a primeira foi Tommy). Bem, o disco abre com o barulho do mar, e vamos para a primeira música “The Real Me“… Pronto! Todo o meu medo de me decepcionar tinha ido embora: aquilo era uma pedrada! A letra era provocativa, o vocal ainda mais agressivo, instrumentos furiosos gritavam nos meus ouvidos e a pergunta “Can you see the real me, can you?” repercutia em mim, e me enchia com uma sensação de conforto: alguém entendia os meus anseios. O álbum Quadrophenia inteiro trata da questão de identidade: quem eu sou realmente, quando irei me descobrir, quando as pessoas me verão como realmente eu sou, quando irei me tornar quem eu desejo ser. Em vários pontos do disco o vocalista canta o seguinte trecho “Is it me? For a moment”, indicando a transitoriedade e inconstância da personagem do disco. Músicas como “5:15″, “Doctor Jimmy”, “The Punk and the Godfather”, “The Real Me” me tocaram profundamente, além de possuírem um som encorpado, barulhento e acabei me identificando muito com esse barulho todo. Durante todo o tempo tive a sensação de ser eu quem estava cantando, e que todas as letras foram escritas para mim. Eu me sentia aquela personagem correndo atrás do seu próprio eu, a ansiedade dela era a minha, e eu já não sabia onde começava o meu “real me” e terminava a personagem: de certa forma acabamos por nos misturar. Somente um grande álbum consegue produzir esse efeito: de me deixar entrar na música e sentí-la como parte da minha vida, em resumo: viver a música.
Essa sensação de “viver a música” é extremamente forte. E levei isso ao extremo quando ouvi “I’m One”… Nenhuma outra letra me disse tanto a respeito, quanto “I’m One“. Eu fiquei tão assustado com o quanto aquela música falava sobre e para mim, que acabei frustrado por não a ter escrito antes, ou simplesmente não ter conseguido me expressar de forma tão clara. E foi isso tudo o que The Who me proporcionou: fúria, raiva, uma necessidade de ser eu mesmo, auto-conhecimento, e naquele dia eu enxerguei em mim uma necessidade de expressão artística que eu não podia mais reprimir. Naquele dia a música tinha ganhado um outro sentido, e percebi que a arte de fato pode mudar o mundo, ou pelo menos o meu mundo. Eu me conectei a banda de forma profunda, e até hoje eu encaro as letras e melodias do The Who com uma ótica diferente, vendo sempre por um diferente ângulo, e elas sempre se encaixam no momento que estou vivendo. E o Tommy? Bah! Um monte de gente já falou desse disco (que é uma verdadeira obra-prima), e eu já falei demais por hoje! Conheçam The Who, conheçam Tommy! Depois a gente conversa…
Abraços,
Diego.









































Li algo e me lembrei de você, meu caro. Também de alguns outros amigos.
Não sei se lhe falei, mas iniciei um estudo sobre a filosofia proposta por Epicuro, que em muito se assemelha com algo que penso para mim, pelo menos no pouco que conheci até agora. Do que li, retiro um trecho da carta que filósofo escreveu a seu amigo Idonemeu, no dia de sua morte:
” Este dia em que te escrevo é o último da minha vida e é também o mais feliz. Sinto tais dores de bexiga e de entranhas que nem se poderia imaginar dores mais violentas; mas estes sofrimentos são compensados pela alegria que traz à minha alma a recordação de nossas conversações.”
Sempre me traz muita alegria conversar com você meu amigo, e claro, ler seus textos e observações, bem como as descrições sobre seus sentimentos em relação ao mundo.
Nem a dor de estar perdido, e a incompreenssão do fato, me tira isto. Compartilhemos mais…
Celebremos.
Abraço,
Kenneth
A melhor opera rock do mundo é Tommy!
Não foi a toa que pedi voce para baixar isso na rede pra mim. Já assisti algumas muitas vezes.
Tommy é um grande lixo. The who é precursura do emo que assola o rock n´roll. Não tem valor nenhum.
Abbey Road é mto melhor!!!!!
olá
só quero dizer que o fanatismo (beatlemaniaco) não leva a nada!
ambas as bandas têm bons trabalhos e maus trabalhos! o segredo é ouvir as musicas sem preconceitos e ideias pré idealizadas!
aliás os beatles que nao são deuses têm musicas que não interessam a ninguem e outras (bastantes) muito boas!
sem mais um abraço a todos
LX90