Letícia – Introdução
A semana é um bicho comprido. Se deixarmos ela se enrola na gente e nos quebra por completo, tal e qual uma jibóia. E aí pronto! Perdemos nossos projetos, prazos, compromissos e tudo atrasa. A vida atrasa. E aí é a gente que se enrola no meio da semana, ou na semana toda.
- “Que raio de vida complicada!!! Nunca dá tempo de fazer nada…”, Letícia comenta com seus próprios botões (apesar de sua roupa não ter botão algum, só um zíper na saia).
Letícia é uma garota comum, trabalhando num emprego comum, vêm de uma família comum, seus hábitos são comuns assim como seu estilo de vida e modo de se vestir; de forma bem simples: Letícia é uma garota comum como qualquer outra. Ela não possui nenhum diferencial, destaque ou algo que valha a pena mencionar. Aliás, ela é tão comum que só mesmo um estreante se meteria a escrever sobre ela. E como toda garota comum, Letícia se acha única, especial e importante. Algumas garotas tendem a se achar a última bolacha do pacote, esquecendo que hoje em dia só se come bolacha em momentos de desespero. Mas esse tipo de mulher não se importa em vender-se como um biscoito Passatempo, quando na verdade são apenas rosquinhas Mabel (aquelas com gosto de sabão de côco).
Acontece que Letícia é diferente. Ela não se acha o último biscoito recheado do mundo. Pelo contrário, ela se sente como uma cópia barata da rosquinha Mabel (com gosto de sabão em barra, aquele azulão): apenas uma rosquinha barata no meio de uma prateleira cheia de outros biscoitos melhores. E se não bastasse isso, Letícia trava uma batalha épica com sua agenda. Às vezes ela ganha algumas batalhas e consegue cumprir um ou outro compromisso; mas na maioria das vezes ela perde feio. Se houvesse um placar, eu arriscaria dizer que a agenda está ganhando por uma diferença de três dígitos. Ela se esforça para cumprir as tarefas e acompanhar o ritmo do mundo moderno, apela para todos os métodos de organização disponíveis: post-it, agenda, bloco de anotações, pastas, divisórias, lista de tarefas, Outlook, Google Calendar etc. Mas nada adianta. Quando ela menos espera abre uma janelinha do MSN e pronto… perdeu uma meia hora de bate-papo. Mais quinze minutinhos para ver os Power Points enviados pelos colegas de faculdade. Aí temos aquela olhadela no Orkut, Facebook, MySpace etc. Você sabia que o ex-namorado da Letícia retirou o status “solteiro” do Orkut? Não? Pois ela gastou dois dias tentando descobrir “o motivo” dessa mudança.
No final se tratava de uma mocinha muito jeitosa, que de mocinha só restou a orelha direita (a esquerda já tinha perdido a “mocidade”), com a qual o rapaz já tinha se envolvido anteriormente. Você ainda não sabe, mas isso é motivo para Letícia consumir semanas de terapia: por quê ele preferiu a tal mocinha? Por que a Letícia afasta os homens? Questões debatidas há séculos pela Filosofia, consideradas a chave da existência humana… Com tamanho peso nos ombros é óbvia a falta de tempo para executar suas tarefas do cotidiano. A angústia trazida por tamanho sofrimento e preocupação a imobilizam por completo. Ela sente a inércia agindo sobre o seu corpo em repouso, enquanto a agenda ganha mais algumas batalhas cotidianas.
Letícia chegou a conclusão de que a vida não foi feita para ela, e nesse mundo não se pode encontrar encaixe. Ela é uma espécie de “mártir da existência sofrida”: sofre por opção, apenas para chamar a atenção do mundo para a dor daqueles que não se encaixam. Afinal, todas as demais pessoas são bem resolvidas e vivem numa boa, perfeitamente encaixadas no mundo. Ela é a única, ou uma das poucas, peça(s) fora do quebra-cabeça. Ao perceber isso ela desistiu de agir. Não adianta tentar, afinal o mundo a rejeitou antes mesmo que ela começasse a fazer parte dele. Já tentaram argumentar, mostrar outras perspectivas, explicar que se o “mar não está nem pra peixe, pra gente então nem se fala”. Não adiantou nada. Ela tem a mais absoluta certeza que sua solidão, tristeza e a sensação de não pertencer a esse mundo são impossíveis de serem compreendidas.
A vida dessa garota é completamente bagunçada: a faxina do apartamento tá atrasada uns dois meses, deixou acumular para última semana uns cinco livros da faculdade para ler, tem três provas até sexta-feira, quatro trabalhos pra entregar, ainda não assistiu a nenhum filme daquela pilha enorme que ela comprou e tem muito trabalho acumulado no emprego. Ela tenta ter disciplina, quer ser uma pessoa séria, organizada e confiável. Mas acontece algo meio que por mágica: ela acorda consciente de suas obrigações e, quando menos espera, está na frente do computador olhando o Orkut, assistindo temporadas inteiras das séries que baixa ou jogando vídeo-game. E fica assim, vendo sua própria vida passar. Ela tem consciência de tudo o que acontece: das tarefas se acumulando, e de como sua inércia transforma sua vida numa bomba-relógio composta de problemas, prestes a explodir. Mas de alguma forma ela fica ali… parada, esperando a vida explodir, sofrendo enquanto não chega a hora.
Hoje é madrugada de domingo para segunda, e nessa semana sua vida explodirá: as contas já estão atrasadas há dois meses, ela será reprovada em praticamente tudo na faculdade, no trabalho ela será demitida se não correr com as tarefas dela, a família virá visitá-la no sábado para ver como as coisas andam… Enfim, vamos acompanhar como será a semana dessa nossa amiga, que não é nada além de uma garota comum. Os meus próximos textos aqui do blog serão um passeio dentro da cabeça da Letícia, e eu serei o seu guia, então comprem pipoca, refrigerante e chocolate pois o espetáculo irá começar.
Abraços,
Diego.







































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E aê, cara?
Olha, passei aqui pra te falar que o N@ndo BlogArt tá de cara nova!! Mudei o tema e agora em vez do branco-pálido agora tá azul…
Diego acabei de ler sua introdução ao seu conto Letícia. Seu texto é excelente, você brincou com as palavras e deixou o texto interessante e divertido. Parabéns.