Letícia: Parte I – Fantasia e realidade
A luz do sol invadia a janela e devassava o quarto de Letícia, enquanto o astro rei aquecia o corpo semi-nú da garota enrolada nos lençóis. A noite de sexta-feira foi maravilhosa: saiu com as amigas para um happy hour, tomou alguns chopps e depois encontrou o namorado e alguns casais: foram experimentar um restaturante novo de comida japonesa. Depois partiram para uma boate e dançaram até altas horas. Depois cada casal tomou seu rumo, e Letícia foi para casa com seu parceiro. Transaram o resto da madrugada até amanhecer, e ela se sentia a garota mais amada e desejada do mundo: mesmo depois de 3 anos, seu namorado ainda a desejava e queria romance com ela. Um cara gentil, carinhoso, bonito, possuía uma ótima carreira e era muito apaixonado pela namorada. Todas as amigas e conhecidas invejavam Letícia: “ele é um gato”, dizem algumas; “como ela é sortuda, não sei o que fez para merecer um cara como aquele”, destilam outras; “Ai! Ele é tudo o que eu sempre sonhei”, devaneavam outras tantas. O relógio na parede marcava mais de meio dia e Letícia começava a sentir cócegas em sua nuca, enquanto uma voz macia sussurava: “Hora de despertar, dominhoca!”. Com o passar do tempo as cócegas foram substituídas por leves e suaves beijos na nuca, pescoço e lábios. Não tardou para Letícia despertar e encontrar seu namorado por cima dela, sorrindo e de braços abertos pronto para enlaçá-la, como se estivesse dando boas-vindas para mais um ótimo final de semana em casal. Ela devolveu o carinho com seu sorriso radiante e um beijo ardente. E enquanto eles se enlaçavam em meio à carícias e todos os pequenos gestos de casais apaixonados, pode-se ouvir ao longe uma voz áspera, irritadiça, grosseira e infeliz: “Vai descer no próximo, madame?”.
Letícia foi obrigada a sair da sua fantasia e descer da van, já estava atrasada para o trabalho… O primeiro dia de trabalho da semana. Eu e ela odiamos a segunda-feira.
É tão comum encontrar essa menina perdida em seus próprios sonhos e fantasias, que por vezes eu me pergunto se ela não passa mais tempo vivendo a própria imaginação, do que construindo a própria vida no mundo real. Enquanto caminhava rumo ao prédio velho e cheio de mofo onde trabalhava, ia revivendo aquela noite maravilhosa de sexta-feira com a qual tinha fantasiado. Uma sexta-feira bem melhor do que ficar sozinha em uma kitinete, com meia pizza requentada e assistindo a primeira temporada de House, uma série que seus amigos recomendaram. Ela havia concluído que a realidade não era sua amiga, e o mundo possuía mil conspirações diferentes para mantê-la infeliz dentro da sua kitinete. Se isso é verdade ou mentira não me cabe julgar, mas com certeza o mundo não quer confiná-la naquela kitinete suja e bagunçada, afinal Letícia será despejada na semana que vem caso não consiga pagar os aluguéis atrasados até sexta. Enquanto seus pensamentos sobre a sua fantasia mais recente misturavam-se com questões existenciais profundas, salpicando essa massa de angústia e desespero com a idéia do aluguel, Letícia executava o mesmo caminho: seguia por ruas antigas e estreitas recheadas de prédios claustrofóbicos, onde pessoas se amontoavam para entrar e gastar 8 a 10h de seu dia atrás de mesas velhas cheias de cupim.
Enquanto andava maquinalmente, sentia o cheiro de sexo, urina e fezes das esquinas onde prostitutas trabalharam durante toda a noite. O cheiro a trazia para o mundo real, e sentiu medo da arquitetura dessas ruas. Os prédios e lojas são estruturas sujas de ferro e concreto, com uma personalidade agressiva e modos truculentos. A sensação é que a qualquer momento um daqueles prédios iria adquirir vida e esbofeteá-la ali no meio de todos. As janelas pareciam olhos que vigiavam sua caminhada à passos rápidos em uma passarela cinza com pedras portuguesas encardidas, seguindo cada passo dado, se esgueirando pelos cantos esperando o momento certo para atacar violentamente. As fachadas transpiravam lodo e insegurança, encarar seus músculos de concreto e rugas que o tempo não deixava mais esconder ou reformar, causava pavor e a deixava em pânico. E apesar de todos os prédios em todos os quarteirões possuírem a mesma aparência ameaçadora, eles não eram uniformes em tamanho e formato: a diferença entre eles criava vãos e espaços escuros, e com isso a dúvida: o que esperar de cada gueto desses? Letícia sentia medo dos edifícios e ruas. A arquitetura da cidade inspirava o pânico e a paranóia, assim como instigava a violência proporcionando ambientes perfeitos para crimes e perversidades: nos mantém isolados, sem contato com o vizinho, sem saber o que se passa para além da parede; nos confina a existências medíocres e assustadas dentro de celas pálidas de concreto; nos tornam presas fáceis para criminosos e nos oprimem até enlouquecermos.
O ar era pesado e deixava um gosto ruim na boca, enquanto a realidade cinza, fedida e barulhenta invadia seus olhos, nariz e ouvidos. Ela andava de cabeça baixa, intimidada e tentando voltar para sua fantasia com o seu namorado perfeito, mas não conseguia pensar em nada além do pânico que sua vida lhe causava. Letícia não conseguia sentir sua fantasia: o toque do seu namorado se perdia com os esbarrões levados em meio a multidão; os beijos em sua nuca e declarações de amor eram substituídos por pessoas apertando seu braço para oferecer empréstimos, panfletos ou pedir algum dinheiro. Não importa o motivo, tudo aquilo era mais real do que qualquer fantasia feliz. Quando chegou em frente ao seu prédio foi abordada por um desses vendedores de filmes piratas, ela a tocou no braço e ofereceu algum DVD. Naquele momento ela sentiu a mão do vendedor pressionando seu corpo, e foi totalmente dominada pelo suejito: não conseguia se desvencilhar, dizer algo ou fazer qualquer movimento. Se aquele homem tentasse beijá-la ela não conseguiria resistir pois ele a tinha dominado por completo, estava totalmente subjugada por um terceiro. Os olhos dele a penetravam, necessitava daquele olhar para sentir-se viva e saciar a sua fome de si mesma. Ela ficou inerte durante alguns instantes, totalmente entregue ao momento, apenas sentindo a vida fluir em seu corpo enquanto o estranho não largava seu braço para abordar uma outra pessoa. E quando isso aconteceu Letícia foi devolvida para a frente daquele prédio velho e sua grade descascada e cheia de ferrugem. Ela odiava a grade: era velha, frágil, corroída pela ferrugem e o tempo, não possuía firmeza, nem dava medo ou passava respeito…
Subiu alguns lances de escada, remexeu sua bolsa em busca das chaves e abriu a porta da sala. Letícia trabalhava como secretária em um pequeno escritório de contabilidade. Não era o emprego dos sonhos, era burocraticamente chato e desagradável, mas ajudava a cobrir os custos com a faculdade e moradia. Era uma saleta pequena com uns poucos móveis antigos e gastos, muitos papéis espalhados pela sala e dois computadores lentos. Trabalhavam com ela o contador, um homem com seus 40 anos, calvo, gordo e de modos asquerosos; e o office boy, um fedelho espinhento na casa dos seus 17 anos, com cabelo crespo e uma expressão de fome.
Naquela manhã Letícia chegou antes de todos. Ela apenas aproveitou o silêncio e a tranquilidade do pequeno escritório e sentou. Estava prestes a desabar. “Tenho que dar um jeito na minha vida, em mim mesma”, suspirava tentando não cair novamente em suas fantasias. Ela possuía certa beleza, graça e um charme único; não era uma modelo estonteante, mas possuía várias qualidades e adjetivos, apesar de relutar em enxergá-los ou admití-los, e não havia justificativa para suas fantasias serem apenas devaneios distantes da realidade. Letícia encarava o calendário em cima da mesa e refletia sobre a semana que iniciava. O ar ao seu redor estava denso e pesado e ela sentia um enorme peso em seus ombros, sua musculatura enrijecia, seu peito arfava, o coração batia acelerado e as coisas ao seu redor giravam rapidamente. Tudo passava rapidamente por sua cabeça: as provas na faculdade, contas vencidas e por vencer, os limites de cartões de crédito estourados, aluguel atrasado, ameaça de despejo eminente, planilhas e documentos importantes no escritório atrasados por semana, suas longas horas deprimida e com pena de si mesma, toda a tristeza que sentia por não ser como as outras pessoas… A consciência da culpa era algo que a atormentava: era a única responsável pela própria vida, ninguém mais podia ser responsabilizado por isso. O arrependimento pelas horas, dias e semanas jogando vídeo-game, assistindo séries e navegando sem rumo pela internet, pressionava seu peito como se houvesse uma grande bola de ar esmagando seus pulmões e comprimindo sua coluna: essa massa de ar subia e descia pelo seu corpo, ora pressionando seu peito, ora a garganta, ora o estômago. Um calafrio percorreu sua espinha, ela sentiu um frio intenso arrepiando todo o seu corpo e, nesse momento, todos os seus sentidos entraram em alerta. Os objetos possuíam uma textura diferente, pegajosa e grudenta e dissolviam-se no toque de Letícia. Ela sentia sua mesa transformar-se numa massa líquida e pegajosa diluindo-se entre suas mãos, um sentimento de nojo a tomava por completo. Ela esfregava as mãos em seu corpo tentando se livrar daquela umidade, mas suas roupas também ganharam essa textura diferente, e em pouco tempo todo o seu corpo era violado por essa essência úmida. Letícia sentia o próprio suor escorrendo por sua pele, mas não era mais o seu suor: era a essência da mesa, de suas roupas e tudo mais que ela tocasse. Além de invadir sua pele, aquele líquido, que outrora fora seu, possuía um odor forte um cheiro que invadia suas narinas e provocava-lhe náuseas. O cheiro azedo a dominava por completo, não havia como escapar dele por mais que tentasse fechar o nariz: suas mãos exalavam o mesmo odor e levá-las ao rosto causava-lhe vômito. Tentou prender a respiração mas não adiantou – aquele cheiro vinha de dentro dela, aquele era o seu próprio cheiro: ela não aguentava o próprio cheiro. Respirava com dificuldade, abria a boca e tentava engolir o máximo de ar que pudesse, como se a saleta fosse uma grande piscina. Começou a sentir um gosto metálico, sua boca ficou seca e não conseguia mais salivar, estava enjoada e com náuseas, iria vomitar a qualquer momento. O tic-tac do relógio estava cada vez mais alto, ela podia ouvir o barulho de móveis sendo arrastados nas salas ao lado, os sons das pessoas na rua entravam pelas frestas da porta e janela. Podia ouvir claramente seus passos, vozes e buzinas de carros. Respirava com cada vez mais dificuldade, e seus pulmões faziam tanta força para trabalhar que Letícia podia ouví-los claramente. A saleta se fechava em torno dela, os poucos móveis e paredes se aproximavam de forma ameaçadora e em pouco tempo iriam esmagá-la. Era preciso correr e sair dali, mas ela não conseguia sair do lugar. O mundo iria se fechar em volta dela, não haveria mais espaço para se mexer ou para respirar, ela só precisava levantar e correr e tudo daria certo, mas Letícia continuava ali inerte e tremendo. Tudo se acabaria mas ela não conseguiria fazer o mínimo gesto, a menor ação para sobreviver. Não existia, não possuía vida, era apenas um punhado de matéria ocupando um espaço no mundo.
Letícia fechou os olhos e tentou respirar. Apenas respirar pausada e calmamente, enquanto voltava a si mesma: as paredes da sala não a comprimiam, o gosto e cheiro não existiam, e nada se dissolvia em sua pele. Isso era apenas medo. Ela teve um insight e pôde visualizar toda a sua vida e o final dessa sua bagunça: era o seu apocalipse particular que se aproximava. A realidade ganhava cor, forma, cheiro e gosto. Letícia tomava consciência de si mesma, dos seus problemas e do mundo ao seu redor. Tinha apenas uma semana para resolver todos as suas pendências e sentia medo, entrou em pânico. Estava irremediavelmente sozinha, ninguém poderia fazer nada para ajudá-la: o único remédio era a própria Letícia. Nesse momento lembrou de algo importantíssimo: seus pais viriam no sábado, visita de vistoria – precisavam saber se estava tudo em ordem. O que iriam encontrar? Uma filha desempregada, reprovada na faculdade, endividada, prestes a ser despejada? Por um momento Letícia riu da situação: seria engraçado analisar o comportamento de seus pais. Sua mãe se dividiria entre confortar a filha e apoiar o marido, e acima de tudo tentaria resolver a situação sem escandâ-los, pois a boa imagem da família está acima de tudo. Seu pai expressaria um misto de indignação, prazer e raiva: não foi Letícia a filha que o desafiou e veio para a capital estudar? Ela não quis sair de casa, ir contra seus planos e perspectivas e lutar para trilhar um caminho próprio? Ele não esperava pelo momento de dizer “eu te avisei”, desde o dia em que foi obrigado a concordar com a mudança de Letícia? Ela sabia que seu pai nunca engoliu aquele ultraje, e que o tinha ferido profundamente em seu orgulho. Durante todo esse tempo ela tentou não deixar nenhuma brecha para seu pai aproveitar; aquilo era uma guerra, e ela representava o lado mais fraco apesar de ter conquistado muitas batalhas; qualquer passo em falso e seu pai estaria lá para apontar seus erros, forçá-la a admitir o fracasso e no fim abrir os braços para recebê-la de volta, demonstrando toda a sua misericórdia. Imaginar essa encenação hipócrita causava um certo prazer em Letícia, não tinha como deixar de rir de tudo aquilo. Por outro lado, seus sonhos e projetos seriam dissolvidos naquele “abraço misericordioso”. Sua liberdade seria subjugada pela vontade do seu pai, Letícia seria completamente dominada por ele em troca de ajuda para resolver seus problemas. Os laços sagrados entre pai e filha seriam substituídos por esse pacto macabro, onde sua vontade e direitos sobre a vida seria oferecida como moeda de troca; o abraço paterno selaria esse pacto, seria o início da sua prisão. Ela não conseguia suportar a idéia de perder tudo o que conquistou depois de batalhar tanto, e acima de tudo: perder a si mesma e o direito de escolher a própria vida. Voltar para a sua cidade, ser exposta pelo seu pai como um trófeu de caça, aguentar a humilhação e deboche das pessoas que ela deixou para trás e se conformar com a vida mediana que ela tanto abominou. Isso era uma opção? Todos os seus sonhos e projetos seriam abandonados, suas perspectivas e projeções nunca viriam a ser, ela deixaria de existir e assumiria uma nova vida orquestrada pela família, e sua liberdade seria reduzida a simplesmente aceitar a imposição paterna. De certa forma, a idéia de não possuir mais responsabilidades sobre si mesma a confortava. Se por um lado ela perderia seu poder de decisão, por outro não seria necessário fazer escolhas. A angústia de decidir iria embora, sua vida seria responsabilidade do seu pai, ela precisaria apenas assumir que errou ao tentar viver sozinha. “Tudo isso só está acontecendo porque não consegui reger a minha própria vida, agir de forma honesta e séria comigo mesma e meus projetos de futuro”. Viver era um fardo muito pesado, e escolher a própria vida trazia mais dor e angústia do que qualquer outra coisa. Letícia abriu seus olhos e deixou essa sensação de alívio invadir seu corpo, o peso da escolha havia ido embora, não precisaria mais lutar para conquistar pequenas coisas. Adeus emprego mal-remunerado, freelancers e dificuldades financeiras. A idéia de uma vida pequeno-burguesa não era de todo ruim no fim das contas, e ser livre a fez feliz desde quando? “E todos os meus planos para a vida? Eu projetei algo grande para mim, não conseguia me satisfazer com a vida dos meus pais e amigos; sempre precisei de mais, experimentar coisas novas e ter perspectivas maiores do que um bom casamento e filhos. E o meu orgulho? Consigo abandoná-lo e me entregar ao fracasso? Seria eu mesma se desistisse? Mas quem sou eu mesma? Uma outra fantasia? Porque, na prática, não me percebo como a garota forte e decidida que sempre sonhei ser… Sou sim, uma menina molenga gastando a vida dentro de uma pequena kitinete, incapaz de dar prosseguimento a qualquer projeto… O que me define?”
Nesse instante a porta se abriu, e entrou uma figura corpulenta, barbada e com um cheiro de nicotina e hortelã… Colocou seu paletó no pequeno cabideiro atrás da porta, fez um cumprimento seco e foi para sua mesa. O gongo soou dentro da cabeça de Letícia… O dia tinha começado, a semana tinha começado. Sua vida tinha apenas começado…








































Estou a acompanhar seu conto, está interessante, vejamos o que o futuro reserva a Letícia.
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