Letícia: Parte II – A permissividade de pequenos abusos que sufocam
O cheiro de cigarro e bala de hortelã impregnava o lugar. Em poucos instantes aquela presença ocupava cada fresta da sala, invadindo todo o escritório. Sempre o mesmo ritual: abre a porta vagarosamente, entra no lugar sem dar conta de mais ninguém, coloca o paletó no cabideiro, olha ao redor com um misto de satisfação e interesse, cumprimenta os presentes com um “Bom dia!”, uma mera formalidade, e dirige-se para sua mesa. Olha alguns papéis, liga o computador, dá os primeiros telefonemas e reclama do boy estar atrasado. Passados os 10 minutos desse ritual, inventa uma desculpa para fazer Letícia levantar e ir até ele. Fazia isso várias vezes ao dia apenas para poder observá-la melhor. Durante meses ela não percebeu essa artimanha, quando deu conta de si pensou em demissão, mas desistiu logo. “E além do mais, enquanto for só isso, uma brincadeira inocente, eu não tenho como reclamar ou fazer qualquer outra coisa”.
Naquele dia Letícia levantou-se para pegar uns papéis, a sua primeira atividade da manhã. Ao virar-se de costas sentiu os olhos do chefe em sua nuca e sentiu novamente aquela massa gelada comprimindo o estômago. O olhar a percorria por inteiro e o ar em sua volta se encheu de malícia e desejo, ficou denso e um forte cheiro de suor e sexo deixou o ambiente impossível de se respirar. Naquele momento ela compreendeu a situação: seu chefe a via como um objeto de decoração; desejava possuí-la como um produto do shopping. Pela primeira vez Letícia imaginou a cena e quis vomitar tudo aquilo: sua vida, abusos, fraquezas, medos, convenções e tudo mais que fizeram com ela. A ânsia de vômito era forte mas nada poderia sair. Mesmo que enfiasse o dedo goela abaixo, não conseguiria retirar nada de dentro de si. Estava presa a todas essas sensações e lembranças; atrelada à própria existência.
“Se estou aqui impotente diante do mundo, só resta fazer algo de mim mesma. Mas, se sou obrigada a ser livre, e eu sou meu próprio produto, então eu deixo esse velho fantasiar sobre mim? Sou a responsável por ele me molestar, e usar como um objeto a ser observado e tocado?”… Letícia sentia-se prostituída e humilhada. “Por que deixo ele me usar? Qual é a diferença entre posar como um objeto e dormir com o cara? Não é tudo a mesma coisa, em essência?”. Sentia-se culpada pela situação como se fosse responsável pelo interesse do chefe, incentivando seus abusos. “Bastava me preservar, me dar ao respeito e cortar as brincadeiras logo no início”. Era tarde demais para exigir respeito e lutar contra a situação. Quando ele a chamaria pra sair? Quando tentaria dominá-la? Ela permitiria o abuso? Seria amante do seu chefe? Letícia duvidava de si mesma e da própria integridade: “se eu já deixei ir até aqui, como garantir que as coisas não irão avançar ainda mais?”. E diante dessa idéia a ânsia aumentava.
Oprimida pelo sentimento de culpa ela eximia o chefe de toda a responsabilidade: “ele é um homem de 40 anos, nada mais natural que olhar garotas mais novas; bastava ter demonstrado minha reprovação logo no começo”. Agora ela se perguntava qual o motivo de não ter dado um fim nessas investidas. Medo de perder o emprego? Era uma boa profissional, fora algumas tarefas atrasadas nesse último mês, sempre executou muito bem suas tarefas. Além do mais, conseguir outro emprego não seria algo do outro mundo. Então por que deixou o barco fluir? Por que nunca se incomodou antes? “Eu me incomodei! Quis me demitir assim que percebi”, porém isso não se sustentava. A idéia de demissão foi um reflexo, não uma vontade firme. “E se tudo fosse paranóia minha? Eu precisava ter certeza antes de fazer qualquer coisa”. Várias lembranças vieram a mente: “ele ao seu lado, posicionado de forma a olhar entre seu decote; os pedidos para pegar algo no frigobar, forçando-a abaixar diante da mesa dele; e mais uma série de gestos e toques aparentemente inocentes. “Eu deixei tudo isso acontecer, encarei como brincadeiras e gestos normais, permiti que ele me cercasse como se fosse algo natural”. Veio-lhe à cabeça uma idéia aterrorizante: gostava de ser observada e desejada. “Eu gosto disso? Permito esse jogo porque isso me faz bem?”.
Sou obrigado a interromper os pensamentos da minha personagem e defendê-la: é verdade que Letícia nunca deu atenção às investidas do seu chefe, e tratou o assunto com total indiferença. Somente agora ela deu a devida atenção para o fato e isso deve-se, provavelmente, ao momento tenso de sua vida. Em situações normais, creio eu, isso jamais passaria por sua cabeça.
“Então eu o desejo também? Não! Isso não. Nunca pensei nele dessa forma, e mesmo agora não consigo sequer imaginar… Isso é paranóia minha, só isso. A idéia de ser seu objeto me enoja. Quem ele pensa que é? Danem-se seus 40 anos! Ninguém tem o direito de me usar dessa forma, eu preciso me dar mais valor e não permitir mais que isso aconteça. Aquele velho nojento vive me cercando, se eu não der um basta agora, o que virá depois? Vai me apalpar? Ir mais além? Dormir na minha cama? Não! Eu preciso sair daqui agora. Demissão é a única saída para resgatar minha dignidade. Não serei amante de um canalha! Sim, um canalha! Usar sua posição de chefe para me subjugar, qual é o nome disso? Canalhice! Só de pensar em todas as pequenas humilhações que passei, tenho vontade de matá-lo…”
Letícia virou-se, reuniu todas as suas forças para pedir demissão! Iria dizer umas boas verdades? Não, melhor apenas se demitir, sem maiores explicações, deixaria que sua indiferença e silêncio demonstrassem todo o seu desprezo. Naquele momento ela olhou sobre a mesa dele, fitou seus olhos e disse:
- Sr. Soares…
Ele apenas desviou o olhar dos seios de Letícia rumo aos olhos, e esperou que ela falasse… Com a voz abafada e trêmula, ela disse:
- Eu… vou precisar dar uma saída agora, resolver uns problemas, o Sr. precisa de algo da rua? Eu volto logo…









































Diego você teve um motivo para dar a sua personagem o nome de Letícia ou foi algo aleatório?
Sabia que o nome Letícia vem do latim LAETITIA e que singinica felicidade?
Esse seria um ótimo momento para me fazer de bobo, e dizer que escolhi o nome propositalmente…
Eu tenho alguns critérios meus para nomear personagens, mas nada que se ligue ao significado de um nome. Foi um tiro certeiro no escuro!
Abraços,
Diego.
PS: Você usa algum dicionário de nomes, ou algo do tipo? Já vi alguns sites, mas nada que parecesse sério…
Grande mestre ravick! entra no MSN, preciso bate um papo reto com vc