A perda da inocência: como me tornei professor
Parece que foi ontem, eu tinha meus poucos 18 anos e ia mudar o mundo. Eu não queria conquistá-lo, apenas mudá-lo. Tinha passado para o curso de História, na UFG (só pra dizer que passei numa Federal…hahaha), e dava aula para o ensino médio. “Como é que é?”, se perguntam alguns leitores atentos. É o seguinte: lá em Goiás eles pagam R$2,20 por hora para um professor, e por esse motivo legal e justo, abrem concurso para 500 vagas e uns 250 se inscrevem… Mas precisamos de gente para alienar as nossas crianças, ops… digo… er… treinar as mentes brilhantes do amanhã, então qual foi a solução do Estado? Contratam universitários para fechar o quadro de professores. É um contrato chamado pró-labore, e eu era um desses “tapa-buraco educacionais”.
Ali eu descobri o que gosto e sei fazer de melhor: ensinar. E também foi ali que eu descobri o quanto “é mais fácil o mundo nos mudar, do que a gente mudar o mundo”. Dei aula para praticamente todas as turmas de Ensino Médio de uma certa escola, nas matérias de História e Sociologia. Eu nem vou entrar no mérito da selvageria de alguns alunos, pois o Fernando Félix já falou muito bem sobre isso. Eu aprendi a não me preocupar com a quantidade de jovens desperdiçando suas vidas, sem ao menos perceber isso; eu me preocupo mesmo com aqueles poucos que, asism como eu, desejavam ardentemente conquistar algo maior para suas próprias vidas.
Para essa minoria eu planejava minhas aulas, e escrevia sobre Durkheim, Marx e Weber; bolava formas criativas e bem humoradas para narrar fatos históricos; escrevia apostilas, resolvia questões de vestibular, ensinava como redigir bons textos; incentivava a lutarem por si mesmos; por eles, eu briguei com coordenadoras e diretora, exigi bons livros e condições de estudo dignas; engoli muitos sapos e esporros; enfim, por eles eu me apaixonei pela profissão…
Mas tudo na vida cansa… E bimestre após bimestre, ter meu diário de classe confiscado pela diretora e ser forçado a adulterar notas de alunos (não podia reprovar ninguém), me deixou cansado… Ir para reuniões de professores, onde todos se limitavam a falar mal dos alunos, outros professores, coordenadores e diretora, me deixou cansado… Propor uma Feira de Ciências e Cultura que integrasse a escola toda, e ver que uns três jovens fazendo cover da banda Calypso na festa junina, era mais interessante para a coordenação, me deixou cansado… Ser chamado à direção, e ser acuado a apoiar dentro de sala, um candidato à vereador X ou Y porque era conveniente, me deixou cansado… Ver um adolescente de 15 anos, perdido e abandonado pelos pais, revoltado com a sua própria vida, ser expulso da escola quando poderíamos apenas estender a mão e ajudá-lo, me deixou cansado… Ser a obrigado a mentir no questionário da Secretaria da Educação, sobre a qualidade do ensino, e ver dois dias depois no jornal que o índice de reprovação no estado tinha diminuído muito, me deixou cansado… Ouvir o sobrinho borra-botas da diretora falar grosso comigo, só porque a tia o enfiou na coordenação, me obrigou a falar mais grosso ainda, e me deixou cansado demais…
E por fim, quando meu cansaço se tornou contagiante, vieram perguntar por que eu estava cansado… Respondi a verdade, e aí não gostaram. E daí pra frente, a situação foi ficando insustentável. Peguei o meu orgulho e saí.
De lá pra cá, virei um bom profissional de web e voltei a dar aulas, agora no SENAC, e pretendo retomar o curso de História no próximo ano. Mas aquele ideal romântico e ingênuo, de quem se emputecia com o fato de coisas simples não funcionarem direito, morreu há alguns anos… Deu lugar à ele, uma visão mais realista de quem já conta com a estupidez e ineficiência das pessoas. Eu desisti de mudar o mundo, meu foco agora é ajudar outras pessoas, e eu mesmo inclusive, a entender como viver nele. A inocência de um adolescente apaixonado ficou para trás, perdida em meio a estatísticas mentirosas e visões tacanhas.
Abraços,
Diego.








































Bom, tenho certeza que, embora não o mundo inteiro, com o seu esforço por ser o bom professor que foi pelo tempo que deu, você conseguiu mudar alguém, e isso é louvável no mundo tosco em que vivemos – valeu a pena! É bem ruim a forma como os ideais utópicos que construímos cuidadosamente são igualmente desconstruídos pela vida…
Grande Diego, belas palavras como sempre! Add o banner de voces no meu blog, ok? Um abraço no amigo Ravick também!!
Sem comentários…apenas uma dura realidade. Que todos sejamos livres e felizes.
Caro Diego
De professor para professor:
Realmente é uma profissão ingrata, também eu, deixei de lutar por aqueles que não querem ser ajudados, mas nunca devemos abandonar aqueles que desejam se salvar do naufrágio da alienação.
Eu simplesmente desisti do mundo. Mas para onde ir? Para o mundo espiritual? Sorte de quem acredita neste acalanto. Ah, fui mandado embora da UNIP(reparem as minhas rugas de preocupação) porque eu escrevi (tirando sarro) que não sabia da existencia de programas sociais na instituição… mas me enganei: sei agora que lá existe um programa de emburrecimento social. Grande coisa. Para o alto e avante.
Ah, hoje não estou nem ai se tem alguém querendo aprender. No final das contas, estão só fazendo de conta que querem mesmo.
Kenneth
Oh kenneth, cadê você? Não vá ainda para o mundo espiritual. Esse aqui ainda tem muito prá se ver. mas não custa dá uma espiadinha nesse outro. Venha me ver. Abraços