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	<title>Os Amorais &#187; Contos</title>
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	<description>Mau humor, humor negro e cabeças movidas a alcóol</description>
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		<title>Letícia: Parte II &#8211; Dando um calote em si mesma</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jul 2009 13:25:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Marques</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Letícia]]></category>
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		<description><![CDATA[Há sempre algo relaxante na saída para o trabalho: mesmo as ruas abarrotadas, a luz fraca dos postes, os mendigos se aninhando para dormir, algumas pessoas indo pra casa, outras chegando no trabalho, nada disso parece tão ruim. A cidade fica palatável durante a noite. Letícia estava no ônibus rumo à faculdade. Rosto grudado na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há sempre algo relaxante na saída para o trabalho: mesmo as ruas abarrotadas, a luz fraca dos postes, os mendigos se aninhando para dormir, algumas pessoas indo pra casa, outras chegando no trabalho, nada disso parece tão ruim. A cidade fica palatável durante a noite. Letícia estava no ônibus rumo à faculdade. Rosto grudado na janela, olhava para o mundo além do vidro e se perdia nele. No meio de tantas luzes e pessoas, seus problemas iam embora, a dor não existia mais e ela sentia um leve torpor.</p>
<p>O veículo percorria as ruas vagarosamente, deixando as pessoas mais próximas de seus destinos. Letícia observava o sobe-e-desce de passageiros, refletia consigo mesmo se haveria para ela algum destino, um ponto de chegada, onde finalmente pudesse dizer: &#8220;Cá estou! Onde eu sempre quis estar&#8221;. Haveria algum lugar onde o motorista pudesse deixá-la? Afinal, não era essa sua função: deixá-la o mais perto possível do destino final?</p>
<p>Repassava seu dia, e a cada momento lembrado concluía ser uma pessoa fraca e incapaz de guiar a própria vida. Era simplesmente arrastada pela multidão de pessoas, acompanhava o fluxo, vagava pelo mundo sem sentido ou direção. Pensava em quantas vezes brigou com meio mundo pelos seus ideais, em quantos egos ela feriu para se impor, manter seus sonhos e ideais, na quantidade de pessoas que lhe guardavam rancor. O pior nisso tudo, era encarar o sorriso mórbido dessas pessoas, que regozijavam-se com sua própria miséria.</p>
<p>Hoje era dia de prova na faculdade. Não tinha lido ou estudado nada, a reprovação era uma certeza. &#8220;Por que raios estou indo? Não tenho chances mesmo! Além do mais, encarar a &#8216;patotinha&#8217; da faculdade é sempre um saco&#8230;&#8221;. Letícia sentiu na pele o custo de sua coerência e princípios. Enquanto seus colegas resvalavam na superficialidade do universitário moderno, ela lutava por manter suas próprias idéias e consciência. Nunca quis recitar autores famosos, apenas discutir idéias, seja de Nietzsche ou da faxineira, sendo bom, se valesse a pena, que mal havia em parar e refletir sobre algo?</p>
<p>Por esses e outros motivos, Letícia era uma espécie de &#8220;persona non-grata&#8221; para muitos da faculdade. Uma figura com personalidade, opinião própria e, até certo ponto, truculenta, quando se vê defendendo o que considera correto. Claro que tudo isso era resumido em um adjetivo: encrenqueira&#8230; O ônibus entrou no campus, e a familiaridade do ambiente interrompeu seus pensamentos: precisava descer. &#8220;Preciso descer? Por que raios, preciso descer? Já estou perdida mesmo! O que seria melhor: ficar aqui e falhar, ou ir pra casa estudar para amanhã? Não quero encarar aquele pessoal, falhar na frente deles. Não vou descer, vou ficar aqui e ir pra casa&#8221;.</p>
<p>&#8220;Mas&#8230; E o motorista? Ele vai me achar louca por voltar para o centro da cidade. Eu posso mentir, dizer que esqueci algo&#8230; E se ele perceber a mentira? Além de louca, passarei por mentirosa. É melhor descer e pegar o próximo ônibus&#8230;&#8221;. Ela desceu. Ficou no ponto, esperando o próximo ônibus, onde poderia voltar para casa, como uma anônima comum, sem motoristas para julgá-la. Passaria como uma pessoa normal, e ninguém iria notá-la. &#8220;Eu quero ser notada o tempo todo, tenho sede de coisas grandiosas porque preciso ser reconhecida. Ser a encrenqueira da faculdade&#8230; Ao menos consegui meu lugar&#8230; Não é um bom lugar, mas é meu. Estava vago e eu o ocupei&#8221;.</p>
<p>Pensava nos colegas de turma, no quanto eles eram tacanhos, e em como ela não queria fazer parte da vida deles. &#8220;Eles são como a maioria das pessoas&#8230; Se encaixam no mundo, possuem bons lugares para o espetáculo da existência, enquanto eu estou sentada na escada, assistindo a mim mesma encenar um papel secundário, sem paixão ou vontade; uma encenação pífia, do que eu poderia ser&#8230; O mundo não foi feito para pessoas como eu, isso é um fato inquestionável&#8221;. Esses pensamentos a assombram desde muito tempo, como uma justificativa para o fato dela se afastar do mundo, gradualmente. &#8220;Eu não me afasto! Ele é que me afasta! É tão difícil entender que eu simplesmente não me encaixo?&#8221;.</p>
<p>Nesse momento o telefone tocou: &#8220;Lêêêêê! Onde você está, sua maluca? A esposa do prof. Roberto dormiu sem calcinha hoje, só pode!!! Você não vai acreditar: a prova é em dupla! Eu me matei de estudar, mas você sabe escrever muito melhor do que eu! Estamos feitas! Vem pra cá agora! Ou eu te mato!&#8221;&#8230; Ela desligou o celular e caminhou rumo à sala de aula, para encarar aquelas pessoas idiotas de sempre, sentir-se deslocada do resto do grupo, mas pelo menos não iria mais ser reprovada&#8230;</p>
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		<title>Letícia: Parte II &#8211; A permissividade de pequenos abusos que sufocam</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Jun 2009 15:00:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Letícia]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
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		<category><![CDATA[conto]]></category>
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		<description><![CDATA[O cheiro de cigarro e bala de hortelã impregnava o lugar. Em poucos instantes aquela presença ocupava cada fresta da sala, invadindo todo o escritório. Sempre o mesmo ritual: abre a porta vagarosamente, entra no lugar sem dar conta de mais ninguém, coloca o paletó no cabideiro, olha ao redor com um misto de satisfação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cheiro de cigarro e bala de hortelã impregnava o lugar. Em poucos instantes aquela presença ocupava cada fresta da sala, invadindo todo o escritório. Sempre o mesmo ritual: abre a porta vagarosamente, entra no lugar sem dar conta de mais ninguém, coloca o paletó no cabideiro, olha ao redor com um misto de satisfação e interesse, cumprimenta os presentes com um &#8220;Bom dia!&#8221;, uma  mera formalidade, e dirige-se para sua mesa. Olha alguns papéis, liga o computador, dá os primeiros telefonemas e reclama do boy estar atrasado. Passados os 10 minutos desse ritual, inventa uma desculpa para fazer Letícia levantar e ir até ele. Fazia isso várias vezes ao dia apenas para poder observá-la melhor. Durante meses ela não percebeu essa artimanha, quando deu conta de si pensou em demissão, mas desistiu logo. &#8220;E além do mais, enquanto for só isso, uma brincadeira inocente, eu não tenho como reclamar ou fazer qualquer outra coisa&#8221;.</p>
<p>Naquele dia Letícia levantou-se para pegar uns papéis, a sua primeira atividade da manhã. Ao virar-se de costas sentiu os olhos do chefe em sua nuca e sentiu novamente aquela massa gelada comprimindo o estômago. O olhar a percorria por inteiro e o ar em sua volta se encheu de malícia e desejo, ficou denso e um forte cheiro de suor e sexo deixou o ambiente impossível de se respirar. Naquele momento ela compreendeu a situação: seu chefe a via como um objeto de decoração; desejava possuí-la como um produto do shopping. Pela primeira vez Letícia imaginou a cena e quis vomitar tudo aquilo: sua vida, abusos, fraquezas, medos, convenções e tudo mais que fizeram com ela. A ânsia de vômito era forte mas nada poderia sair. Mesmo que enfiasse o dedo goela abaixo, não conseguiria retirar nada de dentro de si. Estava presa a todas essas sensações e lembranças; atrelada à própria existência.</p>
<p>&#8220;Se estou aqui impotente diante do mundo, só resta fazer algo de mim mesma. Mas, se sou obrigada a ser livre, e eu sou meu próprio produto, então eu deixo esse velho fantasiar sobre mim? Sou a responsável por ele me molestar, e usar como um objeto a ser observado e tocado?&#8221;&#8230; Letícia sentia-se prostituída e humilhada. &#8220;Por que deixo ele me usar? Qual é a diferença entre posar como um objeto e dormir com o cara? Não é tudo a mesma coisa, em essência?&#8221;. Sentia-se culpada pela situação como se fosse responsável pelo interesse do chefe, incentivando seus abusos. &#8220;Bastava me preservar, me dar ao respeito e cortar as brincadeiras logo no início&#8221;. Era tarde demais para exigir respeito e lutar contra a situação. Quando ele a chamaria pra sair? Quando tentaria dominá-la? Ela permitiria o abuso? Seria amante do seu chefe? Letícia duvidava de si mesma e da própria integridade: &#8220;se eu já deixei ir até aqui, como garantir que as coisas não irão avançar ainda mais?&#8221;. E diante dessa idéia a ânsia aumentava.</p>
<p>Oprimida pelo sentimento de culpa ela eximia o chefe de toda a responsabilidade: &#8220;ele é um homem de 40 anos, nada mais natural que olhar garotas mais novas; bastava ter demonstrado minha reprovação logo no começo&#8221;. Agora ela se perguntava qual o motivo de não ter dado um fim nessas investidas. Medo de perder o emprego? Era uma boa profissional, fora algumas tarefas atrasadas nesse último mês, sempre executou muito bem suas tarefas. Além do mais, conseguir outro emprego não seria algo do outro mundo. Então por que deixou o barco fluir? Por que nunca se incomodou antes? &#8220;Eu me incomodei! Quis me demitir assim que percebi&#8221;, porém isso não se sustentava. A idéia de demissão foi um reflexo, não uma vontade firme. &#8220;E se tudo fosse paranóia minha? Eu precisava ter certeza antes de fazer qualquer coisa&#8221;. Várias lembranças vieram a mente: &#8220;ele ao seu lado, posicionado de forma a olhar entre seu decote; os pedidos para pegar algo no frigobar, forçando-a abaixar diante da mesa dele; e mais uma série de gestos e toques aparentemente inocentes. &#8220;Eu deixei tudo isso acontecer, encarei como brincadeiras e gestos normais, permiti que ele me cercasse como se fosse algo natural&#8221;. Veio-lhe à cabeça uma idéia aterrorizante: gostava de ser observada e desejada. &#8220;Eu gosto disso? Permito esse jogo porque isso me faz bem?&#8221;.</p>
<p>Sou obrigado a interromper os pensamentos da minha personagem e defendê-la: é verdade que Letícia nunca deu atenção às investidas do seu chefe, e tratou o assunto com total indiferença. Somente agora ela deu a devida atenção para o fato e isso deve-se, provavelmente, ao momento tenso de sua vida. Em situações normais, creio eu, isso jamais passaria por sua cabeça.</p>
<p>&#8220;Então eu o desejo também? Não! Isso não. Nunca pensei nele dessa forma, e mesmo agora não consigo sequer imaginar&#8230; Isso é paranóia minha, só isso. A idéia de ser seu objeto me enoja. Quem ele pensa que é? Danem-se seus 40 anos! Ninguém tem o direito de me usar dessa forma, eu preciso me dar mais valor e não permitir mais que isso aconteça. Aquele velho nojento vive me cercando, se eu não der um basta agora, o que virá depois? Vai me apalpar? Ir mais além? Dormir na minha cama? Não! Eu preciso sair daqui agora. Demissão é a única saída para resgatar minha dignidade. Não serei amante de um canalha! Sim, um canalha! Usar sua posição de chefe para me subjugar, qual é o nome disso? Canalhice! Só de pensar em todas as pequenas humilhações que passei, tenho vontade de matá-lo&#8230;&#8221;</p>
<p>Letícia virou-se, reuniu todas as suas forças para pedir demissão! Iria dizer umas boas verdades? Não, melhor apenas se demitir, sem maiores explicações, deixaria que sua indiferença e silêncio demonstrassem todo o seu desprezo. Naquele momento ela olhou sobre a mesa dele, fitou seus olhos e disse:</p>
<p>- Sr. Soares&#8230;</p>
<p>Ele apenas desviou o olhar dos seios de Letícia rumo aos olhos, e esperou que ela falasse&#8230; Com a voz abafada e trêmula, ela disse:</p>
<p>- Eu&#8230; vou precisar dar uma saída agora, resolver uns problemas, o Sr. precisa de algo da rua? Eu volto logo&#8230;</p>
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		<title>Letícia: Parte I &#8211; Fantasia e realidade</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 19:35:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<category><![CDATA[perda de sonhos e projetos]]></category>
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		<description><![CDATA[A luz do sol invadia a janela e devassava o quarto de Letícia, enquanto o astro rei aquecia o corpo semi-nú da garota enrolada nos lençóis. A noite de sexta-feira foi maravilhosa: saiu com as amigas para um happy hour, tomou alguns chopps e depois encontrou o namorado e alguns casais: foram experimentar um restaturante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A luz do sol invadia a janela e devassava o quarto de Letícia, enquanto o astro rei aquecia o corpo semi-nú da garota enrolada nos lençóis. A noite de sexta-feira foi maravilhosa: saiu com as amigas para um <em>happy hour</em>, tomou alguns chopps e depois encontrou o namorado e alguns casais: foram experimentar um restaturante novo de comida japonesa. Depois partiram para uma boate e dançaram até altas horas. Depois cada casal tomou seu rumo, e Letícia foi para casa com seu parceiro. Transaram o resto da madrugada até amanhecer, e ela se sentia a garota mais amada e desejada do mundo: mesmo depois de 3 anos, seu namorado ainda a desejava e queria romance com ela. Um cara gentil, carinhoso, bonito, possuía uma ótima carreira e era muito apaixonado pela namorada. Todas as amigas e conhecidas invejavam Letícia: &#8220;ele é um gato&#8221;, dizem algumas; &#8220;como ela é sortuda, não sei o que fez para merecer um cara como aquele&#8221;, destilam outras; &#8220;Ai! Ele é tudo o que eu sempre sonhei&#8221;, devaneavam outras tantas. O relógio na parede marcava mais de meio dia e Letícia começava a sentir cócegas em sua nuca, enquanto uma voz macia sussurava: &#8220;Hora de despertar, dominhoca!&#8221;. Com o passar do tempo as cócegas foram substituídas por leves e suaves beijos na nuca, pescoço e lábios. Não tardou para Letícia despertar e encontrar seu namorado por cima dela, sorrindo e de braços abertos pronto para enlaçá-la, como se estivesse dando boas-vindas para mais um ótimo final de semana em casal. Ela devolveu o carinho com seu sorriso radiante e um beijo ardente. E enquanto eles se enlaçavam em meio à carícias e todos os pequenos gestos de casais apaixonados, pode-se ouvir ao longe uma voz áspera, irritadiça, grosseira e infeliz: &#8220;Vai descer no próximo, madame?&#8221;.</p>
<p>Letícia foi obrigada a sair da sua fantasia e descer da <em>van</em>, já estava atrasada para o trabalho&#8230; O primeiro dia de trabalho da semana. Eu e ela odiamos a segunda-feira.</p>
<p>É tão comum encontrar essa menina perdida em seus próprios sonhos e fantasias, que por vezes eu me pergunto se ela não passa mais tempo vivendo a própria imaginação, do que construindo a própria vida no mundo real. Enquanto caminhava rumo ao prédio velho e cheio de mofo onde trabalhava, ia revivendo aquela noite maravilhosa de sexta-feira com a qual tinha fantasiado. Uma sexta-feira bem melhor do que ficar sozinha em uma <em>kitinete</em>, com meia pizza requentada e assistindo a primeira temporada de House, uma série que seus amigos recomendaram. Ela havia concluído que a realidade não era sua amiga, e o mundo possuía mil conspirações diferentes para mantê-la infeliz dentro da sua <em>kitinete</em>. Se isso é verdade ou mentira não me cabe julgar, mas com certeza o mundo não quer confiná-la naquela <em>kitinete</em> suja e bagunçada, afinal Letícia será despejada na semana que vem caso não consiga pagar os aluguéis atrasados até sexta. Enquanto seus pensamentos sobre a sua fantasia mais recente misturavam-se com questões existenciais profundas, salpicando essa massa de angústia e desespero com a idéia do aluguel, Letícia executava o mesmo caminho: seguia por ruas antigas e estreitas recheadas de prédios claustrofóbicos, onde pessoas se amontoavam para entrar e gastar 8 a 10h de seu dia atrás de mesas velhas cheias de cupim.</p>
<p>Enquanto andava maquinalmente, sentia o cheiro de sexo, urina e fezes das esquinas onde prostitutas trabalharam durante toda a noite. O cheiro a trazia para o mundo real, e sentiu medo da arquitetura dessas ruas. Os prédios e lojas são estruturas sujas de ferro e concreto, com uma personalidade agressiva e modos truculentos. A sensação é que a qualquer momento um daqueles prédios iria adquirir vida e esbofeteá-la ali no meio de todos. As janelas pareciam olhos que vigiavam sua caminhada à passos rápidos em uma passarela cinza com pedras portuguesas encardidas, seguindo cada passo dado, se esgueirando pelos cantos esperando o momento certo para atacar violentamente. As fachadas transpiravam lodo e insegurança, encarar seus músculos de concreto e rugas que o tempo não deixava mais esconder ou reformar, causava pavor e a deixava em pânico. E apesar de todos os prédios em todos os quarteirões possuírem a mesma aparência ameaçadora, eles não eram uniformes em tamanho e formato: a diferença entre eles criava vãos e espaços escuros, e com isso a dúvida: o que esperar de cada gueto desses? Letícia sentia medo dos edifícios e ruas. A arquitetura da cidade inspirava o pânico e a paranóia, assim como instigava a violência proporcionando ambientes perfeitos para crimes e perversidades: nos mantém isolados, sem contato com o vizinho, sem saber o que se passa para além da parede; nos confina a existências medíocres e assustadas dentro de celas pálidas de concreto; nos tornam presas fáceis para criminosos e nos oprimem até enlouquecermos.</p>
<p>O ar era pesado e deixava um gosto ruim na boca, enquanto a realidade cinza, fedida e barulhenta invadia seus olhos, nariz e ouvidos. Ela andava de cabeça baixa, intimidada e tentando voltar para sua fantasia com o seu namorado perfeito, mas não conseguia pensar em nada além do pânico que sua vida lhe causava. Letícia não conseguia sentir sua fantasia: o toque do seu namorado se perdia com os esbarrões levados em meio a multidão; os beijos em sua nuca e declarações de amor eram substituídos por pessoas apertando seu braço para oferecer empréstimos, panfletos ou pedir algum dinheiro. Não importa o motivo, tudo aquilo era mais real do que qualquer fantasia feliz. Quando chegou em frente ao seu prédio foi abordada por um desses vendedores de filmes piratas, ela a tocou no braço e ofereceu algum DVD. Naquele momento ela sentiu a mão do vendedor pressionando seu corpo, e foi totalmente dominada pelo suejito: não conseguia se desvencilhar, dizer algo ou fazer qualquer movimento. Se aquele homem tentasse beijá-la ela não conseguiria resistir pois ele a tinha dominado por completo, estava totalmente subjugada por um terceiro. Os olhos dele a penetravam, necessitava daquele olhar para sentir-se viva e saciar a sua fome de si mesma. Ela ficou inerte durante alguns instantes, totalmente entregue ao momento, apenas sentindo a vida fluir em seu corpo enquanto o estranho não largava seu braço para abordar uma outra pessoa. E quando isso aconteceu Letícia foi devolvida para a frente daquele prédio velho e sua grade descascada e cheia de ferrugem. Ela odiava a grade: era velha, frágil, corroída pela ferrugem e o tempo, não possuía firmeza, nem dava medo ou passava respeito&#8230;</p>
<p>Subiu alguns lances de escada, remexeu sua bolsa em busca das chaves e abriu a porta da sala. Letícia trabalhava como secretária em um pequeno escritório de contabilidade. Não era o emprego dos sonhos, era burocraticamente chato e desagradável, mas ajudava a cobrir os custos com a faculdade e moradia. Era uma saleta pequena com uns poucos móveis antigos e gastos, muitos papéis espalhados pela sala e dois computadores lentos. Trabalhavam com ela o contador, um homem com seus 40 anos, calvo, gordo e de modos asquerosos; e o <em>office boy</em>, um fedelho espinhento na casa dos seus 17 anos, com cabelo crespo e uma expressão de fome.</p>
<p>Naquela manhã Letícia chegou antes de todos. Ela apenas aproveitou o silêncio e a tranquilidade do pequeno escritório e sentou. Estava prestes a desabar. &#8220;Tenho que dar um jeito na minha vida, em mim mesma&#8221;, suspirava tentando não cair novamente em suas fantasias. Ela possuía certa beleza, graça e um charme único; não era uma modelo estonteante, mas possuía várias qualidades e adjetivos, apesar de relutar em enxergá-los ou admití-los, e não havia justificativa para suas fantasias serem apenas devaneios distantes da realidade. Letícia encarava o calendário em cima da mesa e refletia sobre a semana que iniciava. O ar ao seu redor estava denso e pesado e ela sentia um enorme peso em seus ombros, sua musculatura enrijecia, seu peito arfava, o coração batia acelerado e as coisas ao seu redor giravam rapidamente. Tudo passava rapidamente por sua cabeça: as provas na faculdade, contas vencidas e por vencer, os limites de cartões de crédito estourados, aluguel atrasado, ameaça de despejo eminente, planilhas e documentos importantes no escritório atrasados por semana, suas longas horas deprimida e com pena de si mesma, toda a tristeza que sentia por não ser como as outras pessoas&#8230; A consciência da culpa era algo que a atormentava: era a única responsável pela própria vida, ninguém mais podia ser responsabilizado por isso. O arrependimento pelas horas, dias e semanas jogando vídeo-game, assistindo séries e navegando sem rumo pela internet, pressionava seu peito como se houvesse uma grande bola de ar esmagando seus pulmões e comprimindo sua coluna: essa massa de ar subia e descia pelo seu corpo, ora pressionando seu peito, ora a garganta, ora o estômago. Um calafrio percorreu sua espinha, ela sentiu um frio intenso arrepiando todo o seu corpo e, nesse momento, todos os seus sentidos entraram em alerta. Os objetos possuíam uma textura diferente, pegajosa e grudenta e dissolviam-se no toque de Letícia. Ela sentia sua mesa transformar-se numa massa líquida e pegajosa diluindo-se entre suas mãos, um sentimento de nojo a tomava por completo. Ela esfregava as mãos em seu corpo tentando se livrar daquela umidade, mas suas roupas também ganharam essa textura diferente, e em pouco tempo todo o seu corpo era violado por essa essência úmida. Letícia sentia o próprio suor escorrendo por sua pele, mas não era mais o seu suor: era a essência da mesa, de suas roupas e tudo mais que ela tocasse. Além de invadir sua pele, aquele líquido, que outrora fora seu, possuía um odor forte um cheiro que invadia suas narinas e provocava-lhe náuseas. O cheiro azedo a dominava por completo, não havia como escapar dele por mais que tentasse fechar o nariz: suas mãos exalavam o mesmo odor e levá-las ao rosto causava-lhe vômito. Tentou prender a respiração mas não adiantou &#8211; aquele cheiro vinha de dentro dela, aquele era o seu próprio cheiro: ela não aguentava o próprio cheiro. Respirava com dificuldade, abria a boca e tentava engolir o máximo de ar que pudesse, como se a saleta fosse uma grande piscina. Começou a sentir um gosto metálico, sua boca ficou seca e não conseguia mais salivar, estava enjoada e com náuseas, iria vomitar a qualquer momento. O tic-tac do relógio estava cada vez mais alto, ela podia ouvir o barulho de móveis sendo arrastados nas salas ao lado, os sons das pessoas na rua entravam pelas frestas da porta e janela. Podia ouvir claramente seus passos, vozes e buzinas de carros. Respirava com cada vez mais dificuldade, e seus pulmões faziam tanta força para trabalhar que Letícia podia ouví-los claramente. A saleta se fechava em torno dela, os poucos móveis e paredes se aproximavam de forma ameaçadora e em pouco tempo iriam esmagá-la. Era preciso correr e sair dali, mas ela não conseguia sair do lugar. O mundo iria se fechar em volta dela, não haveria mais espaço para se mexer ou para respirar, ela só precisava levantar e correr e tudo daria certo, mas Letícia continuava ali inerte e tremendo. Tudo se acabaria mas ela não conseguiria fazer o mínimo gesto, a menor ação para sobreviver. Não existia, não possuía vida, era apenas um punhado de matéria ocupando um espaço no mundo.</p>
<p>Letícia fechou os olhos e tentou respirar. Apenas respirar pausada e calmamente, enquanto voltava a si mesma: as paredes da sala não a comprimiam, o gosto e cheiro não existiam, e nada se dissolvia em sua pele. Isso era apenas medo. Ela teve um insight e pôde visualizar toda a sua vida e o final dessa sua bagunça: era o seu apocalipse particular que se aproximava. A realidade ganhava cor, forma, cheiro e gosto. Letícia tomava consciência de si mesma, dos seus problemas e do mundo ao seu redor. Tinha apenas uma semana para resolver todos as suas pendências e sentia medo, entrou em pânico. Estava irremediavelmente sozinha, ninguém poderia fazer nada para ajudá-la: o único remédio era a própria Letícia. Nesse momento lembrou de algo importantíssimo: seus pais viriam no sábado, visita de vistoria &#8211; precisavam saber se estava tudo em ordem. O que iriam encontrar? Uma filha desempregada, reprovada na faculdade, endividada, prestes a ser despejada? Por um momento Letícia riu da situação: seria engraçado analisar o comportamento de seus pais. Sua mãe se dividiria entre confortar a filha e apoiar o marido, e acima de tudo tentaria resolver a situação sem escandâ-los, pois a boa imagem da família está acima de tudo. Seu pai expressaria um misto de indignação, prazer e raiva: não foi Letícia a filha que o desafiou e veio para a capital estudar? Ela não quis sair de casa, ir contra seus planos e perspectivas e lutar para trilhar um caminho próprio? Ele não esperava pelo momento de dizer &#8220;eu te avisei&#8221;, desde o dia em que foi obrigado a concordar com a mudança de Letícia? Ela sabia que seu pai nunca engoliu aquele ultraje, e que o tinha ferido profundamente em seu orgulho. Durante todo esse tempo ela tentou não deixar nenhuma brecha para seu pai aproveitar; aquilo era uma guerra, e ela representava o lado mais fraco apesar de ter conquistado muitas batalhas; qualquer passo em falso e seu pai estaria lá para apontar seus erros, forçá-la a admitir o fracasso e no fim abrir os braços para recebê-la de volta, demonstrando toda a sua misericórdia. Imaginar essa encenação hipócrita causava um certo prazer em Letícia, não tinha como deixar de rir de tudo aquilo. Por outro lado, seus sonhos e projetos seriam dissolvidos naquele &#8220;abraço misericordioso&#8221;. Sua liberdade seria subjugada pela vontade do seu pai, Letícia seria completamente dominada por ele em troca de ajuda para resolver seus problemas. Os laços sagrados entre pai e filha seriam substituídos por esse pacto macabro, onde sua vontade e direitos sobre a vida seria oferecida como moeda de troca; o abraço paterno selaria esse pacto, seria o início da sua prisão. Ela não conseguia suportar a idéia de perder tudo o que conquistou depois de batalhar tanto, e acima de tudo: perder a si mesma e o direito de escolher a própria vida. Voltar para a sua cidade, ser exposta pelo seu pai como um trófeu de caça, aguentar a humilhação e deboche das pessoas que ela deixou para trás e se conformar com a vida mediana que ela tanto abominou. Isso era uma opção? Todos os seus sonhos e projetos seriam abandonados, suas perspectivas e projeções nunca viriam a ser, ela deixaria de existir e assumiria uma nova vida orquestrada pela família, e sua liberdade seria reduzida a simplesmente aceitar a imposição paterna. De certa forma, a idéia de não possuir mais responsabilidades sobre si mesma a confortava. Se por um lado ela perderia seu poder de decisão, por outro não seria necessário fazer escolhas. A angústia de decidir iria embora, sua vida seria responsabilidade do seu pai, ela precisaria apenas assumir que errou ao tentar viver sozinha. &#8220;Tudo isso só está acontecendo porque não consegui reger a minha própria vida, agir de forma honesta e séria comigo mesma e meus projetos de futuro&#8221;. Viver era um fardo muito pesado, e escolher a própria vida trazia mais dor e angústia do que qualquer outra coisa. Letícia abriu seus olhos e deixou essa sensação de alívio invadir seu corpo, o peso da escolha havia ido embora, não precisaria mais lutar para conquistar pequenas coisas. Adeus emprego mal-remunerado, freelancers e dificuldades financeiras. A idéia de uma vida pequeno-burguesa não era de todo ruim no fim das contas, e ser livre a fez feliz desde quando? &#8220;E todos os meus planos para a vida? Eu projetei algo grande para mim, não conseguia me satisfazer com a vida dos meus pais e amigos; sempre precisei de mais, experimentar coisas novas e ter perspectivas maiores do que um bom casamento e filhos. E o meu orgulho? Consigo abandoná-lo e me entregar ao fracasso? Seria eu mesma se desistisse? Mas quem sou eu mesma? Uma outra fantasia? Porque, na prática, não me percebo como a garota forte e decidida que sempre sonhei ser&#8230; Sou sim, uma menina molenga gastando a vida dentro de uma pequena kitinete, incapaz de dar prosseguimento a qualquer projeto&#8230; O que me define?&#8221;</p>
<p>Nesse instante a porta se abriu, e entrou uma figura corpulenta, barbada e com um cheiro de nicotina e hortelã&#8230; Colocou seu paletó no pequeno cabideiro atrás da porta, fez um cumprimento seco e foi para sua mesa. O gongo soou dentro da cabeça de Letícia&#8230; O dia tinha começado, a semana tinha começado. Sua vida tinha apenas começado&#8230;</p>
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		<title>Letícia &#8211; Introdução</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2009 15:56:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Letícia]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
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		<description><![CDATA[A semana é um bicho comprido. Se deixarmos ela se enrola na gente e nos quebra por completo, tal e qual uma jibóia. E aí pronto! Perdemos nossos projetos, prazos, compromissos e tudo atrasa. A vida atrasa. E aí é a gente que se enrola no meio da semana, ou na semana toda.
- &#8220;Que raio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A semana é um bicho comprido. Se deixarmos ela se enrola na gente e nos quebra por completo, tal e qual uma jibóia. E aí pronto! Perdemos nossos projetos, prazos, compromissos e tudo atrasa. A vida atrasa. E aí é a gente que se enrola no meio da semana, ou na semana toda.</p>
<p>- <em>&#8220;Que raio de vida complicada!!! Nunca dá tempo de fazer nada&#8230;&#8221;</em>, Letícia comenta com seus próprios botões (apesar de sua roupa não ter botão algum, só um zíper na saia).</p>
<p>Letícia é uma garota comum, trabalhando num emprego comum, vêm de uma família comum, seus hábitos são comuns assim como seu estilo de vida e modo de se vestir; de forma bem simples: Letícia é uma garota comum como qualquer outra. Ela não possui nenhum diferencial, destaque ou algo que valha a pena mencionar. Aliás, ela é tão comum que só mesmo um estreante se meteria a escrever sobre ela. E como toda garota comum, Letícia se acha única, especial e importante. Algumas garotas tendem a se achar a última bolacha do pacote, esquecendo que hoje em dia só se come bolacha em momentos de desespero. Mas esse tipo de mulher não se importa em vender-se como um biscoito Passatempo, quando na verdade são apenas rosquinhas Mabel (aquelas com gosto de sabão de côco).</p>
<p>Acontece que Letícia é diferente. Ela não se acha o último biscoito recheado do mundo. Pelo contrário, ela se sente como uma cópia barata da rosquinha Mabel (com gosto de sabão em barra, aquele azulão): apenas uma rosquinha barata no meio de uma prateleira cheia de outros biscoitos melhores. E se não bastasse isso, Letícia trava uma batalha épica com sua agenda. Às vezes ela ganha algumas batalhas e consegue cumprir um ou outro compromisso; mas na maioria das vezes ela perde feio. Se houvesse um placar, eu arriscaria dizer que a agenda está ganhando por uma diferença de três dígitos. Ela se esforça para cumprir as tarefas e acompanhar o ritmo do mundo moderno, apela para todos os métodos de organização disponíveis: post-it, agenda, bloco de anotações, pastas, divisórias, lista de tarefas, Outlook, Google Calendar etc. Mas nada adianta. Quando ela menos espera abre uma janelinha do MSN e pronto&#8230; perdeu uma meia hora de bate-papo. Mais quinze minutinhos para ver os Power Points enviados pelos colegas de faculdade. Aí temos aquela olhadela no Orkut, Facebook, MySpace etc. Você sabia que o ex-namorado da Letícia retirou o status &#8220;solteiro&#8221; do Orkut? Não? Pois ela gastou dois dias tentando descobrir &#8220;o motivo&#8221; dessa mudança.</p>
<p>No final se tratava de uma mocinha muito jeitosa, que de mocinha só restou a orelha direita (a esquerda já tinha perdido a &#8220;mocidade&#8221;), com a qual o rapaz já tinha se envolvido anteriormente. Você ainda não sabe, mas isso é motivo para Letícia consumir semanas de terapia: por quê ele preferiu a tal mocinha? Por que a Letícia afasta os homens? Questões debatidas há séculos pela Filosofia, consideradas a chave da existência humana&#8230; Com tamanho peso nos ombros é óbvia a falta de tempo para executar suas tarefas do cotidiano. A angústia trazida por tamanho sofrimento e preocupação a imobilizam por completo. Ela sente a inércia agindo sobre o seu corpo em repouso, enquanto a agenda ganha mais algumas batalhas cotidianas.</p>
<p>Letícia chegou a conclusão de que a vida não foi feita para ela, e nesse mundo não se pode encontrar encaixe. Ela é uma espécie de &#8220;mártir da existência sofrida&#8221;: sofre por opção, apenas para chamar a atenção do mundo para a dor daqueles que não se encaixam. Afinal, todas as demais pessoas são bem resolvidas e vivem numa boa, perfeitamente encaixadas no mundo. Ela é a única, ou uma das poucas, peça(s) fora do quebra-cabeça. Ao perceber isso ela desistiu de agir. Não adianta tentar, afinal o mundo a rejeitou antes mesmo que ela começasse a fazer parte dele. Já tentaram argumentar, mostrar outras perspectivas, explicar que se o &#8220;mar não está nem pra peixe, pra gente então nem se fala&#8221;. Não adiantou nada. Ela tem a mais absoluta certeza que sua solidão, tristeza e a sensação de não pertencer a esse mundo são impossíveis de serem compreendidas.</p>
<p>A vida dessa garota é completamente bagunçada: a faxina do apartamento tá atrasada uns dois meses, deixou acumular para última semana uns cinco livros da faculdade para ler, tem três provas até sexta-feira, quatro trabalhos pra entregar, ainda não assistiu a nenhum filme daquela pilha enorme que ela comprou e tem muito trabalho acumulado no emprego. Ela tenta ter disciplina, quer ser uma pessoa séria, organizada e confiável. Mas acontece algo meio que por mágica: ela acorda consciente de suas obrigações e, quando menos espera, está na frente do computador olhando o Orkut, assistindo temporadas inteiras das séries que baixa ou jogando vídeo-game. E fica assim, vendo sua própria vida passar. Ela tem consciência de tudo o que acontece: das tarefas se acumulando, e de como sua inércia transforma sua vida numa bomba-relógio composta de problemas, prestes a explodir. Mas de alguma forma ela fica ali&#8230; parada, esperando a vida explodir, sofrendo enquanto não chega a hora.</p>
<p>Hoje é madrugada de domingo para segunda, e nessa semana sua vida explodirá: as contas já estão atrasadas há dois meses, ela será reprovada em praticamente tudo na faculdade, no trabalho ela será demitida se não correr com as tarefas dela, a família virá visitá-la no sábado para ver como as coisas andam&#8230; Enfim, vamos acompanhar como será a semana dessa nossa amiga, que não é nada além de uma garota comum. Os meus próximos textos aqui do blog serão um passeio dentro da cabeça da Letícia, e eu serei o seu guia, então comprem pipoca, refrigerante e chocolate pois o espetáculo irá começar.</p>
<p>Abraços,<br />
Diego.</p>
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